Céu do Mapiá (AM)

23/05/2008

mapa

De 13/04/2008 a 22/04/2008

O Céu do Mapiá (AM) é a tradicional comunidade do Santo Daime. O Santo Daime é uma doutrina iniciada por um Maranhense de quase 2 metros de altura chamado Mestre Irineu, que chegou ao Acre no início do século passado. Era seringueiro, soldado da borracha e ouvi dizer que foi integrante da comissão Rondon em 1907.  Ele aprendeu com os índios os rituais com uso milenar da ayahuasca e a re-significou traduzindo para o catolicismo. Recebeu hinos que são cantados até hoje. Sebastião Mota de Melo (então líder de uma comunidade daimista na Colônia Cinco Mil e discípulo de Irineu), teve a iniciativa de fundar uma comunidade que vivesse de forma comunitária e auto-sustentável no meio da floresta, onde todos plantavam, colhiam, abasteciam um galpão e dividiam todo o mantimento em iguais partes. Fundaram a Comunidade no Seringal Rio do Ouro, depois de alguns anos foram expulsos de lá pelo dono das terras. Disseram que ele não deixou ninguém pegar nada além dos terçados. Nem fecharam janelas das casas e seguiram para o lugar que desde 1982 é o Céu do Mapiá. Sebastião faleceu em 1990, fez a passagem, como dizem e hoje o padrinho da comunidade é Alfredo, seu filho.

A cidade de Boca do Acre é assim chamada por ser o lugar onde o Rio Acre deságua no Purus. Fica 200 Km de Rio Branco, mas demora umas 6 horas para chegar de ônibus, estrada de terra e chacoalho. De lá pegamos uma canoa motorizada, viajamos 10 horas com o atento e simpático piloto Sorriso (que recebeu esse nome na Capoeira, pois: _ Na ginga era só rindo, disse ele), pelo rio Purus e depois de muito navegar, ou melhor, canoar, pelo igarapé do Mapiá, que está ainda em cheia e fez a canoa flutuar por entre as copas das árvores.

Fui comprar pão e fui atendida por duas menininhas, uma de uns seis anos e outra de cinco. A mãe delas estava deitada com dor de malária. Já era tarde da manhã e como a vida ali começa muito cedo:

_ Tem pão?

_ Agora só de ontem.

_ Me dá 4.

Conhecemos o padrinho Alfredo e pedimos as devidas autorizações para trabalhar e registrar o trabalho. Seu coração salta pelos olhos, tem o sorriso leve de uma paz contagiante. Conhecemos Oswaldo que nos apresentou a vila, seus antigos moradores. Conhecemos a igreja, os túmulos, vimos uma senhora arrumando as flores com tanto zelo… outras, preparavam a igreja para a concentração que será hoje à noite. A igreja é muito bonita, uma estrela de 6 pontas. Sua arrumação me fez lembrar a Festa do Divino dos outros interiores do Brasil. Aqui incorporam elementos do Candomblé, do Espiritismo e até (num encontro mais inusitado com os índios norte-americanos) o uso do peiote, nos contou Oswaldo.

A madrinha Rita, esposa do falecido padrinho Sebastião, queria muito ver as palhaças, mas, devido à idade, não conseguiria ir andando até a praça, então nós fomos a casa dela. Quando acabamos, ela disse:

_ Mas só? Conta mais uma. Contamos de improviso.

Conhecemos Nilda, a atual diretora e com ela conversamos por muito tempo sentadas na beira do igarapé. Fomos à escola convidar os alunos para a apresentação que Oswaldo nos ajudou a escolher a melhora data e horário: domingo às 15:00 hs, para começar às 16:00hs, quando o sol baixar.

Na casa de farinha Bifi começa a descascar mandioca. _ Com a ajuda da humanidade, vai mais rápido. Disse o moço. Como Quinan não sabe se é humana ou não, não foi.

O Centro de Medicina da Floresta é onde se faz os remédios naturais e onde conhecemos Joana, Renata, Kabir e sua irmã. Compramos o anti-malárico e repelentes de andiroba.

No sábado fizemos uma apresentação no Prato Raso a convite da Liliana. Para lá chegar era preciso caminhar por meia hora na mata aonde vimos duas espécies de macacos: o macaco de cheiro e o puruaku, este era grande e peludo, mas tão peludo que parecia um gato siamês gigante. Depois da apresentação, voltamos para a vila na última hora da luz solar. Entramos na mata com a lua no primeiro dia minguante, grande e baixa. Vimos o sol se pôr de dentro da floresta, o céu alaranjado e o restante da luz na clareira. Bonito demais.

Participamos da festa de aniversário da Marina, italiana que mora aqui há uns 30 anos. A noite esteve prateada. Linda!

Fui comprar 1 litro de gasolina para colocar no gerador e ligar a internet que Roberto ligou depois do expediente.

Nosso último dia aqui no Céu do Mapiá. Dia bonito de sol, almoçamos na casa da Gabriela. Chegamos à praça para arrumar os bancos para as pessoas sentarem. As crianças já estavam todas arrumadas, banho tomado, ansiosas, esperando as palhaças. Fomos nos arrumar na casa de Regina, que originalmente era de padrinho Sebastião, por isso tem sua força, memórias e imagens. A praça ficou cheia. A apresentação começou às 16:30 hs. Entramos em cena e um cachorro chamado Manolo fez a festa: primeiro roubou a vassourinha de Quinan, mas as crianças conseguiram recuperar, depois, na cena do salto no copo d’água, bebeu e derrubou toda a água. No final, quando chegou a hora do agradecimento, o fizemos de coração.

Oswaldo me contou que aqui perto tem um igarapé de nome Quinã, parece que é uma variante do nome de outro igarapé chamado Quimiã. Segundo informações do padrinho Alfredo, seu irmão Valdete, encontrou o Quina procurando o caminho para Quimiã e passou a chamá-lo assim até por dificuldade de pronuncia. Bem, assim se escreve a história…

Agradecemos de coração à:

Isis, Bruxinha, Liliana, Oswaldo, Nilda, padrinho Alfredo, madrinha Rita, Gabriela, Raimundo, Jefe, Yasmin, Maria Eugênia, Irene, Anaruês, Marina, Sorriso.

8 pessoas fizeram comentários

Anonimo - Gravatar

Anonimo disse em 23 de Maio de 2008 às 6:11 pm:

Oitchô…

Erê… terra Katukina…
Xankõ… Pássaro Ajudador…
Oitchô… terra Katukina…
Telelém… Telelém… Telelém…

Oitchô…

Empresta-me teu riso
Rindo do que é miúdo
Mostra talo que vira folha
E ramo se abrindo ao mundo

Deixa-me banhar no rio
Pescar de rede, comer raiz
Imitar o teu silêncio
Ao ouvir o que me diz

Mostra-me se convivi
E mora no teu olhar
O triste que tem aqui
Que teimo em reparar

Ensina-me a ficar quieto
E não ter no que pensar
Esquecer os meus desejos
Para a vida me desejar

Kaitchô…
Eu vim por aqui
Kaitchô…
Eu passo por lá
Kaitchô…
Eu levo daqui
E deixo aonde passar

Anonimo - Gravatar

Anonimo disse em 23 de Maio de 2008 às 6:13 pm:

Sonho pra perguntar

Erê… terra Katukina…
Xankõ… Pássaro Ajudador…
Erê… terra Katukina…
Telelém… Telelém… Telelém…

Sublimo o teu afeto
E sonho pra perguntar
Onde está o ser completo
Que vivo a procurar

Onde esta o invisível
Visível em teu olhar
Que o sumo da natureza
Arvora-se purificar

Forma nova todo dia
No passado viverá
Desenhando universo
Pra qualquer um que virá

Erê… terra Katukina…
Sonho pra perguntar
Aonde a vida termina
Se o sonho não acabar

Erê telelém… telelém…
Xankõ… Pássaro Ajudador…
Telelém… telelém… telelém…

Anonimo - Gravatar

Anonimo disse em 26 de Maio de 2008 às 11:26 am:

Entro na cena

Erê… Minha Parceira…
Erê… terra Katukina…
Telelém… Telelém… Telelém…

Pra comer tem macaxeira
Caça miúda e peixe assado
Sem hora é que é a hora
A fome não tem legado

Pra brincar entro na cena
Desfaço qualquer perigo
O mundo esta no mundo
Lugar onde eu me abrigo

É nele que canto a vida
Pequena em seu sentido
É nele que invento o jeito
De rindo querer partido

Erê… Minha Parceira…
Erê… terra Katukina…
Telelém… Telelém… Telelém…

Anonimo - Gravatar

Anonimo disse em 26 de Maio de 2008 às 11:27 am:

Meu olhar

Erê… Digo o que digo…
Erê… terra Katukina…
Telelém… Telelém… Telelém…

Digo por aqui… digo por lá
Meu rumo é o lugar
Um dia sei de partir
No outro sei de chegar

Meu olhar se fragmenta
Ensaiando pra contar
O que vi em cada parte
Escolhendo meu olhar

Levo comigo o tanto
Que não deixei por lá
Para ir se sobrepondo
Em todo lugar que vá

Erê… Digo o que digo…
Erê… terra Katukina…
Telelém… Telelém… Telelém…

Dr. Escrich - Gravatar

Dr. Escrich disse em 26 de Maio de 2008 às 4:49 pm:

Caras colegas,

Fiquei feliz por poder entrar um pouquinho em contato com a rotina de vossas senhorias e, confesso, com uma certa inveja dessa simplicidade toda que brota de modo mais simples ainda todos os dias, quandos vocês abrem os olhos por ai de manhã bem cedo. Eu, como doutor que sou, também tenho encontrado pacientes com a humanidade ao pé da letra o tempo todo quando dou meus plantões, é claro, num cenário bem diferente e que vocês conhecem tão bem! Por aqui, a mesma urbanidade de sempre, a malária, vemos estampada nos jornais em preto e branco e fotos coloridas. O céu, ainda cinza e o corre-corre não deixa a gente nem ter tempo de comprar o paozinho amanhecido - dizem que o trânsito pára um cinco anos e não vai ter jeito, tô achando bom parar - quem sabe a gente recomeça a andar de outro jeito em cima de outras coisas. Em BH, tenho assistido a cenas lindas e depoimentos emocionados dos nossos novos colegas… crescendo…crescendo, as vezes sentem aquela dor na alma, aquela que faz a gente não saber mais quem a gente realmente é, mas isso é bom, tudo vai ficando de verdade e daí já viu o bichinho não sai mais do corpo nem da cabeça. Bom, escrevi aqui só pra dizer que me orgulho de vocês, que torço muito pra que só tenham bons encontros pela frente e que os vôos por ai façam bater um ventinho sempre aqui por baixo! Um ventinho bom de dar atenção. Um beijo enorme e saudoso.
Dr.Escrich
p.s. - Outro dia aprendi com um pequeno paciente a derreter a Dra.Pororoca e o Dr. Custódio, mas depois pedi pra ele trazê-los de volta para continuarmos o dia de trabalho. Ele é bem poderoso e disse que depois me ensinaria tudo - derreter e desderreter.

Francisco Bretas - Gravatar

Francisco Bretas disse em 26 de Maio de 2008 às 7:45 pm:

Sorrisos semeados no meio da floresta.
Pequenas flores de fortes raízes que dasabrocharão pela vida florzinhas outras,não menos bonitas.
Meu coração segue com voces em cada vagalume, em cada gargalhada, em cada sonho plantado com ternura, com tanto talento no meio do peito dessa erezada.
Que Baco e Oxossi as fortaleçam , as iluminem e as guiem, nesse sacerdocio no coração do Brasil!!

Evoè palhaças do meu coração

Mi - Gravatar

Mi disse em 28 de Maio de 2008 às 3:16 pm:

Meninas!!! Que lindo tudo o que aqui está!!! Fico muito feliz por sentir que um pedacinho de mim está aí com vcs, em cada rio percorrido, em cada canoa, em cada ponte atravessada! As fotos estão lindas de morrer! Anseio por ler mais histórias, conhecer mais personagens e mais relatos! Assim a distância diminui um pouquinho e me sinto ainda mais por aí… Um beijo enorme!

Milena Marques

Arilson (Dr. Ado) - Gravatar

Arilson (Dr. Ado) disse em 29 de Maio de 2008 às 10:05 pm:

Oi, meninas, saudades de vocês!

Que bom poder acompanhar um pouquinho das estripulias de vocês por essas terras tão lindas. Confesso que dá uma vontade enorme de estar também por aí. Aqui em Recife estamos todos bem. Ontem, lançamos oficialmente mais um hospital, o IMIP. Well, Fê e Tati estavam conosco. Foi muito divertido, uma maravilha. É muito bom fazer parte dessa família. Estarei, sempre que puder, atento a tudo o que vocês estiverem aprontando por aí.

Eu sempre passei minhas férias escolares na casa da minha avó, que ficava num vilarejo da Paraíba, muito parecido com o cenário em que estão. Na minha infância, não tive contato com palhaços ou palhaças. Vendo o vídeo (aquelas crianças encantadas, rindo com vocês) eu voltei no tempo da casa da minha avó. Desta vez, havia duas lindas palhaças alimentando a minha alma de criança.

Muito obrigado!
Boas Viagens!!!
Ari

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