à margem da estrada

31/05/2008

De 28/04/2008 a 21/05/2008.

Pegamos o ônibus de Cruzeiro do Sul (Acre), rumo à aldeia Campinas, a primeira aldeia indígena que visitaremos.

Depois de muitos buracos e de atravessar o Rio Juruá numa balsa, chegamos. A viagem durou três horas.  O território Katukina, é cortado pela BR 364 (que liga Rio Branco à Cruzeiro do Sul no período do verão), e foi asfaltada em 2002. Por muito tempo os Katukinas viveram em diversos rios da bacia do Juruá e há mais de 30 anos moram nas margens da BR demarcada em 1984. Na década de1970 com o inicio da obra, um grupo se deslocou do rio Liberdade e alguns do rio Gregório, a fim de trabalhar no desmatamento necessário à construção da estrada. Após o término da estrada receberam autorização para morar às margens da rodovia. Atualmente sua população é de aproximadamente 600 pessoas divididas em 5 aldeias na BR e 1 no rio Gregório. Muitos se mudaram para cá (restando apenas 40 pessoas no rio Gregório), vieram pela facilidade em receber a aposentadoria, para vender o artesanato e obter os produtos industrializados. As aldeias que margeiam a BR é que são cercadas de fazendas, o barulho da estrada espanta a caça e quando o bicho sai daqui não volta mais, porque os fazendeiros pegam. A energia elétrica e consequentemente a televisão, o rádio, a música brega entram em cena.  No trecho indígena da BR é proibido o consumo de bebidas alcoólicas, filmar, tirar fotografias (a não ser que o cacique de cada aldeia autorize). Não se usa dinheiro para nada.

A primeira aldeia é a Campinas onde se concentra a maior parte da população, onde são feitas as reuniões e onde fica a casa que recebe as pessoas de fora, tal como professores, médicos, ambientalistas, etc. Ficamos hospedados nessa casa.

A língua que falam é do tronco lingüístico Pano. A maioria das mulheres não fala o português. Muitos dos homens falam. Cada aldeia tem uma escola com aulas para crianças e adultos (que aprendem o português). Os professores são indígenas e somente na primeira aldeia tem um professor branco. As crianças começam a aprender o português a partir de 10 anos de idade. Vimos uma cartilha muito bonita de alfabetização na língua deles. Todos têm dois nomes, um na língua e outro em português (disseram que é por que acham bonito).

A segunda aldeia tem o nome Varinawa (povo do sol), a terceira é a Masheya (significa Urucum), a quarta é a Samaúma, e por fim a Bananeira.

Na aldeia Campinas existe uma casa-igreja-católica. Perguntei ao Hoshonawa se tem missa lá.

_ De vez em quando, quando o padre vem.

_ E vocês, vão à missa?

_ Não. Aqui ninguém tem paciência para isso não

O rapé é tradição dos Katukinas, feito com folha de tabaco. O cacique explicou que algumas pessoas, como o pajé, usam outros mais fortes misturados com outras raízes maceradas.

Dormi na rede de frente para a janela. Na madrugada acordei por ouvir vozes e ver clarão de lanterna. Olhei. Eram dois índios caçando alguma coisa. Um subiu no açaizeiro, outro procurou no chão. Estavam caçando Kambô. O Kambô (veneno extraído do sapo phyllomedusa bicolor) é usado para curar doenças e tirar a panema (má sorte na hora da caça). Precisa queimar a pele em alguns pontos e passar o veneno por cima. Dizem que a pessoa fica muito mal, vomita e caga tudo. A definição indígena sobre a panema:  _ É como um carrapato. Ela gruda e você não percebe. Tomamos o Kambô porque ele faz você sentir que vai morrer. Daí o carrapato também acredita e vai embora. Mas você sobrevive e a panema passa.

Fizemos palhaçada na aldeia Campinas. Todos sentavam na frente da porta, agarradinhos, com medo. Depois de tudo isso, Hoshonawa nos faz a seguinte pergunta: _ Essa brincadeira de palhaço de vocês, significa o quê?

As brincadeiras indígenas servem para treinar o corpo para o dia a dia e para brincar mesmo. Por exemplo: a dança em cima da brasa ajuda a calejar os pés, a brincadeira de arremessar o bambu, treina a pontaria; a brincadeira de levar o homem ou a mulher para a poça e se cobrir de lama dá conta das curiosidades sexuais, a de chicotear o outro com o capim cortante cria resistência no corpo. As brincadeiras são coletivas, todos participam com o mesmo papel. O Mariri é uma dança que fortalece os laços do povo. Os cantos celebram a vida.

Chegamos ao centro da aldeia e desenhamos um círculo no chão colocando um pedaço de pau para representar a entrada. Bifi entrou em câmera lenta, eu entrei assim também, depois todas as crianças imitando igual nosso jeito. Todas ficaram agachadas, dentro do círculo, passando a bola no jogo miudinho.

A pintura deles é preta (genipapo) e vermellha (urucum). Preto significa paz e vermelho guerra.

Decidimos subir o rio Gregório para conhecer o lugar onde todos moraram um dia e a vida na mata. O Paulo nos disse que para isso deveríamos falar com o cacique de lá, João Grosso (Rirá na língua). Íamos com Paulo procurá-lo para que nos apresentasse, mas de repente sumiu (tinha ido ver a horta medicinal com Davi) e nós, achando que ele já tinha ido para a aldeia saímos correndo, gritando por ele. Vinha vindo um homem que perguntou:

_ Você perderam o Paulo?

_ É que íamos com ele falar com João Grosso.

_ É, mas esse sou eu.

Conversamos e acertamos tudo em relação à data e combustível para subir até o Gregório.

Existe o presente no viver deles que é tão belo. São frases que saem, olhares que silenciam, movimentos que compõe, a natureza que se destaca. Afirmações e contrários, como quando dizemos:

_ Tá quente hoje? E alguém responde:

_ Frio não tá não. Ou então:

_ Quente né?

_ Quente mermo.

Brincamos de cana e mamão na aldeia Masheya. As mulheres iam com tudo para cima dos homens. O convite para a brincadeira da cana é cheio de malícia: eles se aproximam arrastando a cana no chão até o meio das nossas pernas, até nos deixar numa situação interrogativa. Quem não reagia por instinto podia até machucar os “entremeios”. Mulher puxava de um lado, homens do outro. Quem ganha, fica com a cana. A do mamão era jogar o mamão para seu time, não deixando o outro pegar. Nisso o mamão já ia ficando machucado, pronto para comer. E foi o que aconteceu com o time vencedor. Almoçamos farinha e banana na cada do filho da D. Antônia que tinha 2 jabutis de estimação.

Voltamos à aldeia e nos despedimos das pessoas para seguir rio acima. Combinamos tudo com seu João: domingo na D. Rosa do lado do comercial Ibraim, no bairro de S. Vicente.

Fizemos duas apresentações numa festa que a UGAI - Unidade de Gestão Ambiental Integrada organizou para o dia das mães do bairro de Liberdade e S. Vicente, fora do território indígena. As apresentações foram maravilhosas. Tem um momento que muito me encanta: a gag do palhaço sempre vai crescendo, crescendo, até que chega num estouro, que é normalmente quando acontece a gargalhada. Por aqui onde estamos, encontramos muitos  sorrisos tímidos, cabisbaixos e raros. Acho muito bonito ver quando a gag chega em seu ápice e todas aquelas bocas tímidas explodem para rir. Nesse momento ninguém tem vergonha de nada. Todos ficam iguais.

Combinamos de nos encontrar com seu João Grosso hoje à tarde. Chegamos meio dia e nada dele. Colocamos toda nossa bagagem na maloca de sinuca ao lado da casa de D. Rosa e esperamos. Agora são 22:00hs e ainda estamos esperando. Armamos as redes e estamos pronto para dormir. Passamos a tarde toda com os patos, galinhas, porcos, uma porca gigantesca que está prenha.

Ainda estamos esperando…

Acordamos com o galo cantando na nossa orelha. Passou um rapaz aqui, viu Aro filho do pajé, deitado na rede e perguntou: _ E aí passarinho, tá mexendo com o quê hoje? Só com os olhos mermo?

Ficamos sabendo que S. João só chegaria amanhã, o filho veio avisar que ele estava esperando a liberação de um combustível do Cacique geral dos Katukinas… problemas internos.  Obs.: Pagamos todo o combustível necessário para nossa subida e descida do rio.

… depois de muito deliberar, decidimos esperar mais um dia. Quem sabe a porca dava cria…

Um senhor de nome Antonio, branco, veio nos conhecer porque soube das nossas palhaçadas e queria que fôssemos até os Yawanawás brincar com eles. Eu perguntei se ele os conhecia, ele respondeu: _ Eu morava na divisa da terra indígena. Os Yawanawás moravam perto. Eu construí 3 filhos morando lá com eles.

No fim do dia, inesperadamente, seu João chegou no caminhão. Com ele veio muita gente que também ia subir o rio. Mesmo assim, só partiremos amanhã com o nascer do dia. Passamos a dormir noutra maloca para dar espaço a tanta gente que chegou.

2 pessoas fizeram comentários

… - Gravatar

… disse em 3 de Junho de 2008 às 11:27 am:

Muito bom o texto! Bonito e bem escrito!

Anônimo - Gravatar

Anônimo disse em 3 de Junho de 2008 às 3:07 pm:

Kanarô

Oitchô… terra Katukina…
“Kanarô Txerê Tete
Atxa Noma Noma
Atxa Noma Noma” (*)
Telelém… Telelém… Telelém…

Apegada com a mata
E na força pelo corpo
O olhar frágil transpunha
Recortando cada oco

O afeto que nunca teve
Não veio de um desgosto
Faz parte de sua vida
Repartida em cada rosto

Prepara o de comer
Agradece saber meu nome
Já sabe o que sei fazer
Desvendado meu sobrenome

“Kanarô Txerê Tete
Atxa Noma Noma
Atxa Noma Noma” (*)
Telelém… Telelém… Telelém…

(*) Passarinho mostra seu canto e sai voando, voando… (música do Mariri)

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