à margem do rio
Agora é noite e muitas coisas estão acontecendo ao mesmo tempo nesse lugar que mais do que nunca é chamado de Brasil: missa evangélica na igreja com poucas pessoas presentes e o pastor gritando ao microfone, as mulheres katukinas assam peixe na fogueira feita no meio dos bichos soltos, muitos assistem a novela das oito, outros jogam sinuca, crianças nadam no rio, um calor forte e noite estrelada. Seu Pelado é marido de Dona Rosa e dono da pensão. Ele é de uma família de 4 irmãos que se casaram com 4 irmãs. Todos moram aqui. Eles nos contaram como era a vida antes da construção da estrada. Pelado era um “regatão” - um mascate que viaja de canoa vendendo mercadorias rio afora. A mãe de Dona Rosa é índia, tem 99 anos. O pai de seu Pelado vende bananas e mora numa casa que comporta apenas uma cama de solteiro e muitos cachos de bananas. Na hora em que o gerador for desligado, tudo dormirá junto na mesma noite.
Cá estamos numa canoa motorizada com nós quatro, Aro, Metsa, 5 mulheres e 9 crianças subindo o rio Gregório numa viagem que durará um dia e meio.
A viagem até chegar ao primeiro pouso foi boa, bonita e lenta. O rio estava seco, cheio de árvores caídas o que nos fez ter que descer do barco muitas vezes para empurrar a canoa ou cortar os troncos com machado.
Paramos em muitas casas dos ribeirinhos brancos e índios em busca de um rancho ou farinha. Estávamos sem comida, uma vez que tudo que preparamos para a subida se perdeu nesses 3 dias de espera. Passamos a viagem beliscando daqui e dali.
O som do sapo canoeiro era alto. Seu João soltou uma frase cantada, cansada depois de um dia inteiro de viagem dura. Era em tom de lamento, só que alegre: _ Esse sapo que você está ouvindo… é tão gostosinho ele.
Chegamos por volta das 11:00hs na aldeia Timbaúba, rio Gregório. Haja tanto piun! Para se ter uma idéia, aqui é preciso estar o tempo todo com calça, meias, blusa de manga comprida e ainda ficar com um pano para abanar, porque os piuns fazem nuvem em volta da gente. Até tomar banho na luz do dia tem que ser de roupa. Eles só dão folga quando anoitece, cedendo lugar para os carapanãs.
À noite, comemos o tal do canoeiro (sapo). Bom demais o bichinho muquiado. Ainda por cima, tem os ossos azuis!
Fomos caçar paca com Arô, o menino Rantã (de 10 anos) e 3 cachorros. Andamos na mata fechada por uns 40 minutos até que os cachorros danaram a latir. Arô fazia um grito iê, iê, iê, ininterruptamente para o cachorro sentir sua presença e não desistir da caça. Andamos rapidamente até onde ela se entocou. O menino já estava lá avisando qual buraco ela havia entrado. Ficamos ali por uma hora e meia. Os dois cavando o buraco, cutucando, fechando outras possíveis saídas. O menino era muito valente, ia se enfiando dentro da terra sem medo. Tinha uma impressionante habilidade com o terçado. Andava descalço com um espinho no pé, mas não se incomodava. Deixava para cutucá-lo nas horas em que não tinha nada melhor pra fazer. Depois de muito cavar, num vacilo do menino, a paca fugiu. Não deu mais para encontrá-la. Voltamos de mãos vazias.
Dona Conceição estava fazendo isca da folha venenosa (asha na língua) para pegar peixe: macera a folha, mistura com farinha e enrola até virar umas bolinhas. Joga na água, o peixe come e fica sufocado indo à superfície para respirar, daí as crianças os vêem e os pegam. Seu João fazia outro tipo de isca. Enrolava a massa de veneno no formato de uma cobrinha, colocava num pedaço e pau e enfiava na traseira de uma lagarta revirando ela pelo avesso, tirando a gosma que compõe seu corpo por dentro. A isca era então: a minhoca do avesso com recheio de folha entorpecente!
Na madrugada chegaram dois meninos com peixes, acordaram D. Conceição para limpá-los. Ela veio com cara de sono, pegou duas brasas da fogueira e foi fazer fogo no fogão de barro. Com o barulho, muitas pessoas já foram acordando, crianças começaram a chorar…em pouco tempo, a maioria da família já estava sentada em volta do peixe muquiado. Comeram e dormiram de novo, satisfeitos.
Aqui é assim: comem quando tem comida, não importando a hora. Passam o dia na cozinha. Quando não estão comendo, estão preparando. Enquanto os homens saem para caçar, as mulheres vão ao roçado pegar mandioca e bananas, outras vão lavar louça e roupas no rio. As velhas cuidam dos meninos pequenos. A vida é ir em busca de comida. Quando estão sem mais o que fazer, tiram piolhos ou espremem os ferrões dos piuns uns dos outros.
À noite, S. João veio conversar com a gente pedindo ajuda para a aldeia. Falou de um jeito triste e cansado. Explicamos para todos a nossa situação e nosso ofício, que a ajuda que eles precisavam nós não podíamos dar. Ele queria que ajudássemos a organizar uma forma de renda para a comunidade. Falamos em amizade… mas tudo ficou impalpável e tornou nossa partida mais triste do que nunca.
Nossa despedida foi rápida. Eu nem soube como despedir. Dei apenas uma palavra de tchau e agradeci.

Faça um comentário
Os campos marcados com "*" são obrigatórios.