à margem do riso
Palavras sobre um encontro de duas línguas,Pano e português,
Palavras que se encontram,
R’ouapá é muito bom.
Brincadeiras que se cruzam,
Com a cana e a bolinha vermelha,
Chapéus que se diferenciam,
Cocar e cabaça,
Silêncios que por vezes não se entendem, mas se estendem.
Palhaças e índios,
Palhaças vindas de São Paulo
Índios de uma etnia chamada Katukina.
Kanarô, uma música deles,
Um samba tocado por nós.
Um rio pra se banhar,
Sorrisos divididos,
Tristezas guardadas,
Estamos todos tentando chegar Lá…
Mas aqui mermo tá bom.
Esse meio é o viver,
Guimarães já disse algo assim.
Eu, como não tenho talento com as letras, fico aqui tentando mostrar o que foi esse encontro.
Que também não foi.
De Campina até Timbaúba,
Da BR 364 , até subir o rio “Grigório”, como dizem eles.
Da energia elétrica até a chama de uma lamparina
Do índio que compra para comer ao índio que caça para saciar a fome,
Da escassa caça até a boa caça,
Do pouco roçado até as muitas macaxeiras, bananas, batatas doces.
Da falta de estrutura e recurso até a falta de estrutura e recurso,
Cada um a seu modo, mas assim…
A beleza do rio Grigório em lua prateada,
Som e cheiro bom de floresta,
Mas, tem pium…. e merium…. e katukin…
Acostuma,
Sei não…
Marina não costumô,
Eu pipoquei bolinhas vermelhas por toda a barriga,
Em Campina é pouco,
Esses mosquitinhos gostam mesmo é de estar no meio da floresta,
As crianças… Viva! A salvação de nosso mundo.
Sem elas acho que não existiriam palhaços,
E então esse nosso encontro não se daria.
Que alegria é ver essas crianças vivendo!
Banham no rio, sobem no pé de árvore, andam de canoa,
Aprendem a pescar, cuidam dos bebês, vão caçar com seus pais,
Dão muita risada, fazem de tudo um brinquedo.
De noite se embalam na rede, aquietam.
O que será que eles sonham?
Tastô, Na’i, Akô, Mepe, Rãntã… e tantas outras…
Como tem crianças por aqui!
Não falamos a mesma língua, mas a comunicação acontece.
Eles me ensinam palavras.
Bunda é ticho, pum é tipis.
Sobem na rede,
Risadas.
É puro, é assim , desse jeitim.
Como é bom.
Mas, aqui também tem adulto e então nos deparamos com questões que não competem a palhaços.
Necessidades básicas, dificuldades do viver,
Falta de diesel para o barco, falta de assistência médica, falta de anzol para a pesca e munição para a caça.
Tanto pium e ninguém têm mosqueteiro. Os bebês sofrem.
Eles querem ver palhaços?
Nós queríamos vê-los, conhecê-los e trocar com eles,
Mas e eles?
O que um palhaço que nem a língua deles fala faz ali? A palavra se faz importante.
O que estamos fazendo aqui? Foi o que em algum momento pensei
Essa pergunta me cala.
E assim seguimos… Pra onde agora?
Na partida, o silêncio de Rira me toca profundamente.
O que diz esse silêncio?
O silêncio diz?
Descemos o rio, ele nos levará…
Na margem do “Grigório”,
Eles ficam
Pa’i, Teká, Metsá, Itsomi, Wa’o, Tsorá, Vokê, Voopá…
Estamos descendo o rio…
Já não consigo mais olhá-los,
Descendo o rio…
Eles estão no meu dentro,
Descendo…
Agradeço,
O rio.
Kaitchô…

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