texto de Frederico Galante

31/05/2008

Acabo de chegar de terras Katukinas. Ganhei nome novo, Xankõ. A haste da pupunha, de onde nascem as folhas e se abrem os ramos. Fiz novos amigos, índios, Arô, Tastô, Mai, Winho, Levy, Nivaldo, outros…Vi afeto de índio, calmo, quieto, tirando sujeiras da cabeça e da pele, como macacos, como gente da selva. Cacei paca com terçado. Pesquei de rede. Ou melhor, acompanhei. Quase dei uma bica na paca, se isto é caçar.
Só banhei em rio, só comi raiz, macaxeira, batata-doce, e caça, paca, canoeiro, porquinho do mato, e pesca, peixe-bode, piranha, peixe-cachimbo. Brinquei como criança, de levantar pequenos do chão, de dar calambiota, de plantar bananeira. Comi banana de mais de penca, tô até cheirando banana, de tanta que foi.
Aprendi palavra, ruapá, obrigado, oitchô, olá, kaitchô, tchau, shawê, jabuti, e outras. Convivi também com o triste, com o índio que quer dinheiro, acha o branco rico, quer competir, quer o que é do branco, não conhece a própria cultura, fica entre um mundo e outro e se perde.
Tem o fascínio pela TV, pela internet, pelo computador, pela música, forró enlatado, brega, tudo alto no talo. Tem estranho, para nós, trato com a mulher, meio sem afeto, para nós, meio machista, para nós, sem agrado e sem satisfação, sai de casa e não volta, não avisa. Não beija e espera comida. Estranho, para nós.
Tem o riso do índio, que é de coisa pequena, simples, de escorregão, de imitar o outro, de imitar bicho, de não saber escapar de flecha, de picada de pium, de ter medo de nadar no açude. O riso do índio é tempo todo. De criança a crescido. Rir até no silêncio, rir da confusão do branco em não saber ficar quieto. Rir de tanto que a gente pensa, de tanto que a gente quer e deseja, de tanto que a gente sonha. De tanto que a gente pergunta. O índio não romantiza, ele já tá completo.
Tem o corpo do índio, que é duro, parece de árvore. Não cai, não desequilibra, não vacila, não se perde. Escuta, cheira, sente, enxerga tudo, de longe. Tem olho demais, que falta na gente.
E de noite, o índio não dorme, ele sublima o dia, ele só se transforma. Mas tá ali, vagando e cheirando, outro organismo, em recarga, em purificação, jogando fora o ruim do dia e esperando de novo o sol, mas tá lá, existindo em forma nova.
Quando toma o uni, folha rainha e cipó jagube, vê o invisível, conversa com o universo, escuta os mortos, enxerga o passado, intui o futuro. Eu vi Tovi, sem saber. Desenhei Tovi pela manhã, nunca o tinha visto, sequer em desenho ou relato. Mostrei pro cacique João, mostrei pra todos em volta dele. Todo mundo, sem vacilo, na hora falou: Pajé Tovi, Tobias no nosso dizer. E vi tudo, desenho no corpo, lança, capacete, forma do corpo. E soube que Arô, tinha chamado Tovi, na língua sua, bem na hora que eu vi. E o vi chegando e o vi protegendo e tive profundo respeito, profunda segurança, admiração. E me senti seguro e me senti forte, como filho seu.
Vimos que palhaço fica vazio no mundo do índio. Eles não precisam, não entendem, querem brincar junto. Não tem como ficar parado espiando, só rindo. Tem que bater nos palhaços, tem que sair correndo, tem que fazer macaquice junto. Então talvez caiba o palhaço, mas tudo eles já fazem. Parar para ficar assistindo é chato, de virar as costas e de ficar falando ao mesmo tempo, de ficar com medo e criança chorar.
Risada maior é quando a gente pega o violão, sem palhaço, e canta música katukina na língua deles, errando palavra, mas cantando direito. Eles querem de novo e de novo e de novo. Violão é coisa maior. Coisa bela de encantar a aldeia inteira. Violão de pôr a mão e de querer aprender a tocar. Querem ensinar música e música, pra gente saber cantar e tocar. Querem aprender música do branco e risada maior é quando o índio canta Itororó. Quando índio canta Marinheiro Só, que vira Canoeiro Só. Quando índio ouve samba e acha que é muito barulhento, não gostam de ouvir. Preferem Se Esta Rua Fosse Minha…
De encanto também foi que mãe, pai, avô, avó, neto, cunhado, tá todo mundo perto. Um cuida do outro e tudo é de todos. A cozinha e a comida tão sempre com gente. E a cozinha é aberta, de frente pro rio. Não tem hora de almoço ou janta. Tem fome, tem macaxeira, peixe pra assar, canoeiro pra pegar no rio. Tem hora de pesca no sol ou na lua. Melhor na lua, peixe maior. De dia, algum tipo de caça, tipo veado ou tatu. De noite, se não de lua cheia, tem paca ou porquinho do mato. Tem peixe de anzol ou rede. Mas melhor é dar um tipo de planta que faz peixe ficar sem ar e ir para a superfície respirar e vem aquela algazarra de criança e adulto, a fim de peixe pegar antes de afundar de novo, sem morte.
Dormir melhor é na rede. Cama dói as costas. Xixi e cocô é no mato mesmo, mas nunca vi cocô de índio…O xixi, sente o cheiro, no mais de manhã, o chão regado de noite. O amor é bom, mas o que faz de filho…Tem gente com até vinte filhos. Dizem que mãe índia põe cria até os sessenta e cinco. Sei não.
Cabelo, não tem branco. Só se comer um tal de peixe que deixa o cabelo branco. Com Conceição assim foi, só que deixou uns quatro cabelos branquinhos no cocuruto, que nem se vê. E foi o peixe.
Cachorro, dá pena. Magros, que só. Ninguém da comida ou carinho. Eles se viram, e têm medo de gente. Tem muito doente da pele, dos óios, de glândulas. Mas tem a que caça paca, e é bem valente, entra dentro da toca e nem cansa. Essa é mais esperta e mais gorda, se vira melhor.
Bem, fica aqui o vivido no povo Katukina. E tem mais, que de tão grande não cabe.

2 pessoas fizeram comentários

Tati - Gravatar

Tati disse em 9 de Junho de 2008 às 4:21 pm:

Oi Fred, oi meninas, que delícia mergulhar nesse site… textos que nos fazem ver, sentir cheiros, querer conhecer; imagens de enxer os olhos.. É muito bom poder acompanhar daqui essa jornada. Um beijo, Tati

Flávia Reis - Gravatar

Flávia Reis disse em 11 de Julho de 2008 às 1:49 am:

Só fico de cá imaginando… Quanta coisa… Nem sei do que cês falam… Sei muito de leitura, parece um Guimarães Rosa, algo que já li e que não existe. Obrigada pela ponte, pelos textos. Beijos, Flávia

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