Taracuá - rio Uaupés (AM)
Do dia 14/06/08 à 03/07/08
Estamos subindo o rio Negro que é belíssimo. Águas escuras, antigas. Um gavião acompanhou durante muito tempo o barco que anda a 12 Km/hora. O comandante é seu José que usa uns óculos que torna seus olhos maiores do que são. Para que eu não perdesse o café da manhã, ele me acordou com uma cutucada no cocoruto, igual a um pica-pau. Durante a novela das oito, haviam oito homenzarrões grudados na TV com sorriso no canto da boca.
Chegamos ao meio dia. A chuva parou. O barco atracou em Camanaus onde almoçamos rapidamente. Dali pegamos um ônibus de linha para o centro de S. Gabriel. Ouvi um comerciante contar que havia sido assaltado. Que o cidadão fez amizade com ele, se oportunou de um momento de distração e levou tudo que dava pra carregar. Hospedamo-nos no hotel do Zé Roraima. Tudo balançava mareado.
A cidade chega, se mostrando na curva do rio. Ouvi um homem dizer qeu curva do rio tem mau agouro. Fiquei ressabiado. Mas olhei pro lado e tava todo mundo feliz, então fiquei mais calmo. É bom estar com gente feliz, faz lembrar que tem o dia e tem a noite, que tudo na vida tem verso e reverso. (anotações de Frederico)
Fomos atrás do diretor da Foirn (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro) que não estava na cidade, procuramos a Andreza do ISA (Instituto Sócio Ambiental) que nos orientou e explicou a dinâmica da região: são cinco calhas, assim chamamos os rios que desembocam em S. Gabriel (rios Uaupés, Tiquié, Içana, Xié e Negro). Em cada rio, existem diversas etnias que moram misturadas em toda bacia do rio Negro cujos troncos lingüísticos são principalmente tukano, arwake e maku. A maioria fala sua língua natal, português e tukano. Na Foirn existem 5 diretores, cada um representa uma calha de rio.
A população de S. Gabriel é 96% indígena. Andando nas ruas ouve-se muita gente falando na língua.
Conhecemos Erivaldo, um dos diretores da Foirn, com quem tivemos uma ótima conversa. Ele é nascido em Piratapuia no rio Uaupés, nos contou um pouco sobre as missões Salesianas, que atualmente existem até padres indígenas e hoje o diálogo entre todos é bom, mas que já presenciou muitos padres quebrando os instrumentos musicais dos índios dizendo ser coisa do demônio.
Erivaldo nos levou para conhecer André do DSEI (Distrito Sanitário Especial Indígena), que nos apoiará logísticamente para subir às comunidades. De tarde andamos atrás de Socorro, a diretora da escola de Camanaus para ver a possibilidade de trabalharmos lá.
S.Gabriel tem uma paisagem diferente do que eu já havia visto na Amazônia, é cercada por alguns morros. Um deles é chamado de bela adormecida (por parecer com uma mulher deitada). O rio Negro nasce na Venezuela cuja formação rochosa é a mais antiga do planeta.
O céu daqui tem forma de ninho. Ninho de homem. E eu que nem sabia que a gente tinha ninho. Bom saber, nem dá medo de morrer. Se der de morrer aqui, morre certo, no lugar de onde se faz vida. Aqui a gente morre feliz, pois é daqui que se nasce de novo. (anotações de Frederico)
Combinamos com Socorro de ir à Camanaus trabalhar e participar da festa de S. João. Compramos comida, deixamos os documentos para a devida autorização da Funai (por nossa estadia por 10 dias em terras indígenas), compramos gasolina para a voadeira e pegamos o ônibus que nos deixou no porto de Camanaus. De lá atravessaremos para a ilha, são 10 minutos de travessia.
Camanaus é muito bonita, cheia de açaizeiros, muito preservada, com um campo de futebol no meio. Aqui moram 36 famílias. Todos já estavam à nossa espera. Socorro nos levou para conhecer a escola e nos alojou no antigo posto de saúde, que hoje não funciona por falta de recursos. Armamos nossas redes.
No fim do dia, antes de anoitecer, o sino da igreja tocou muita gente foi a um encontro que era um pouco de missa (feita por um padre indígena) misturada com reunião comunitária para organizar a festa. Vimos duas senhoras indo para a igreja, cada uma com sua lanterna. Falavam na língua delas. Quando nos viram, perguntaram se éramos enfermeiros. Dissemos que éramos palhaças. Ela nos contou que há muito tempo veio um grupo assim, ela não sabia se de SP ou RJ. Disseram que gostaram muito.
_Como era o nome do grupo?
_ Não sei não. Isso a gente esquece.
Acordamos 6 da manhã, preparamos tudo para a intervenção. Tivemos cenas bonitas com as senhoras varrendo a vila, as crianças nos acompanhando seguindo, Bifi fez um pedido à S. João (santo da festa de hoje e amanhã), tudo que pedia era com ão. Encontramos com uma procissão que ia pedir esmola de casa em casa com um senhor tocando um tambor desafinado. As que estavam em casa (pois a maioria estava na procissão mesmo) davam bananas, cupuaçú, cana de açúcar, farinha. Tudo isso eles penduraram no mastro que foi erguido às 5 da tarde, hora em que a maioria das pessoas já estava embriagada. Depois disso rezaram uma ladainha e acenderam um barco com velas que desceu o rio e logo se apagou. Foi uma festa católica feita pelos indígenas. Era como se aquelas palavras não coubessem naquelas bocas.
A festa e a cachaça duraram a noite toda. Teve briga, choveu, o som ficou no último volume com o brega eletrônico. Ficamos retirados na cozinha da escola conversando e o café da manhã emendou no almoço. Quando fomos devolver a chave e arrumar alguém que nos atravessasse de volta, passamos na festa. As pessoas estavam em pé só por teimosia. Atravessamos com um rapaz, pegamos uma lotação até o hotel do Zé Roraima.
Conheci Domingos, outro diretor da Foirn. Ele explicou o papel da Foirn na região, falou que a tradição indígena já se perdeu muito com a chegada dos Salesianos, contou que o Triângulo Tukano (jogos entre tribos de língua Tukana: Pari-Cachoeira, Içana, Iauaretê, Taracuá e Piraquara) antigamente era feito para troca de experiências, para fazer festa juntos e para jogarem. Hoje esse encontro é tudo isso e um pouco de campanha eleitoral. Contou-nos que ia à um encontro no RJ, mas que não foi porque lhe enviaram somente o trecho de Manaus-RJ. Ele escreveu perguntando onde estava o trecho para chegar em Manaus. Responderam: _Pegue um taxi que depois a gente te reembolsa. De S. Gabriel a Manaus são 812 km. Ou seja: três dias de barco ou 2 horas de avião. O Brasil não acaba em Manaus não.
Saímos na correria como sempre e, chegando ao DSEI tivemos que esperar a voadeira por 1 hora. Ouvi um motoqueiro contar ao amigo: _ Quase eu caí da moto porque entrou uma formiga nas minhas costas. Fiquei imaginando se isso acontecesse só por causa da formiga. Dei risada sozinha com meus pensamentos.
Saímos de S. Gabriel às 9 da manhã numa voadeira de motor 40, viajamos 8 horas pelo rio Negro e depois pelo Uaupés até chegar em Taracuá, que tem 350 moradores e esperam receber para a festa do Triângulo Tukano mais 500 pessoas.
Mais 8 horas de uma canoa de um motor tão forte que voa. A voadeira. Tem sol, chuva, dor nas costas e gente do mato que sobe junto. Eles me surpreendem pela sua união. Ficam abraçados o tempo todo, sempre felizes. Parece que são um corpo só. (anotações de Frederico)
Alojamo-nos no posto de saúde do DSEI, conhecemos Onofre e Arlindo, dois agentes de saúde indígenas. Arlindo nos mostrou a vila e nos apresentou às pessoas. Conhecemos irmã Íris, irmã Ângela, vimos o campo de futebol onde o time feminino treinava, conhecemos o capitão Sabá (assim chamam o líder comunitário). Ele contou que os Salesianos chegaram aqui em 1920, fizeram a igreja e começaram a catequizar. Quem não aparecesse nas missas de domingo, o padre ia buscar em casa. Sabá é professor de matemática do ensino médio, já viajou para SP, RJ e Brasília. Disse que o mundo da cidade é igual a um mato cheio de onças, você pode morrer a qualquer hora. Sempre que se referiu ao mundo dos brancos usou a expressão: _ O mundo envolvente.
Ele ficou curioso em ver as palhaças.
De manhã fizemos palhaçadas. À noite ficamos conversando com Gabriel, o dentista que atua há 3 anos, conhece bem a região e registra tudo que vê e ouve. Nos contou que pajé mesmo nessa região do alto rio Negro só existem uns 5, mas que estão todos nas comunidades colombianas. Disse que os pajés fazem cirurgia e os rezadores cuidam da doença. Quando os pajés chupam a doença chega a sair pedra, pena e areia da boca deles.
Fizemos palhaçadas à tarde, visitamos os bairros mais distantes. Chegou muita gente no posto de saúde, inclusive dois pacientes. A casa está lotada.
Manoel para Marta na cozinha:
_ A pimenta da casa das freiras não arde nada não. Serve só para temperar.
Fizemos uma saída (de palhaça) meio xôxa. Acabamos desistindo. Tem dias que não são feitos para palhaços e o melhor que temos a fazer é arribar.
Como tenho estado ultimamente? Assim, assim, peito cheio sem espaço para derramar. Tudo que eu mais queria nesse momento era ficar um pouco sozinha. Tudo tem tanta gente. Queria falar tukano só para conseguir pensar diferente. Queria pensar mais simples, não pensar nada. A gente nunca se contenta? Queria contentar. As crianças passam aqui na frente e me dão um sorriso, parece que consigo ler: _ Olha lá a palhaça escrevendo. São tão lindas as crianças que me sorriem com cumplicidade. O dia terminou com a noite estrelada. Consegui ficar sozinha ao lado da igreja. A estrela caiu. Inventei um diálogo:
_Vamos adiante, temos que caminhar se quisermos ver o céu estrelado.
_ Não, não me faça olhar que sofro demais.
_ ?
_ É que as estrelas me fazem lembrar sem parar. Eu sempre choro, mesmo quando não quero.
_ É desse jeito que você quer chegar lá?
_ … Prefiro ir de olhos fechados… Bifi, vamos logo para o dia de amanhã porque já estou cansada de hoje.
_ Então vamos.
_ Vamos.
Dormi muito mal essa noite. Soltaram rojões às 4 da manhã, levei um baita susto e na consegui dormir mais. Levantei para ver o dia amanhecer. Escuro ainda já começa o movimento na vila. Mulheres na beira do rio banhando, lavando louça e roupas. Homens passando de toalhas e sabonetes. É muito movimentado.
Hoje nosso dia de trabalho foi muito bom compensando a frustração de ontem. Fizemos a gag do “não pode tocar aqui” na porta da igreja. Bifi recebeu benzimento de seu Antônio rezador e as crianças entraram como nunca no universo nonsense das cabaças. Tivemos muitos jogos de palavras e as crianças participando de tudo, conduzindo o jogo.
Pedimos ao padre Carlos para dormir no casarão Salesiano porque estávamos ocupando muito espaço no posto de saúde. Lá ele dorme sozinho e o lugar é gigantesco, cheio de quartos vazios. Ele deixou. Ontem na missa que o padre rezou havia 3 pessoas. Hoje tinha mais gente (umas 30).
Estou lendo um livro que ele me emprestou “Crenças e Lendas do Uaupés” escrito pelo padre Alcionílio Bruzzi. Recolho alguns trechos:
- na cabeleira escura dos indígenas dessas várias tribos há um fio de cabelo ruivo: é o Ke~e-ri-poa, literalmente “cabelo do sonho”. A esse fio atribui o fato de sonharem quando dormem.
- a primeira urina da criança recém-nascida, quando esfregada sobre os olhos é um remédio eficaz para os incômodos da vista, faz os anciãos recuperarem a visão perfeita.
- de manhã deve-se tomar alimentos quentes. Se tomar frio, os vermes ficam irritados.
- quem preparar o cacuri (curral para pesca) não deve comer coisa verde, por exemplo, a banana assada, a pimenta. Se o fizer, nenhum peixe será apanhado.
- a mulher que come devagar e não obedece ordens recebidas terá um parto demorado.
- quando um rapaz está para se casar não deve pegar em tipiti. Se o fizer, dizem que sua mulher será muito gulosa.
- O costume de tomar banho todas as manhãs bem cedinho é para ficar sempre jovem.
- quando uma pessoa está caminhando e cair uma folha seca sobre ela é sinal de que ela vai encontrar uma velha ou uma viúva.
- ao avistar um boto, se a pessoa cortar a água do rio com um facão, o boto saltará furioso.
- quem come alimento frio e em seguida vai à mata, será seguido pelo Curupira (aqui também chamado de Boraró).
- quando uma criança se põe a chorar sem nenhum motivo real, é sinal de que vai chegar algum forasteiro.
Hoje fizemos bolo de mandioca para a felicidade do padre Carlos. Ele nos contou que antigamente na frente da igreja havia um busto do Juscelino Kubitscheck, o único presidente que já pisou ali. O busto foi derrubado porque os índios ajoelhavam-se fazendo reverência como se ele fosse santo.
Passamos o dia praticamente na cozinha conversando com o padre Carlos, um mineirinho bem engraçado. Entre um quitute e outro saíamos para dar uma volta e ver a abertura do triângulo tukano. Teve apresentação de cantos e danças dos alunos da escola, teve hino nacional brasileiro e colombiano, apresentação das delegações dos times.
À noite fizemos uma rápida apresentação no barracão comunitário, tomamos caxiri, assistimos a competição de quem dançava melhor o brega e, depois de uma cena onde o prefeito, para conquistar votos, jogava balas e pirulitos à todos que se acotovelavam para pegar maior quantidade, fomos dormir.
Padre Carlos nos contou que uma vez foi fazer um curso com um antropólogo que faria um ritual de pajelança para os padres conhecerem. Prepararam tudo, ficaram lá por uma noite toda. Na mesa havia rapé, tabaco e um pedaço de queijo. No fim do processo, o antropólogo perguntou o que havia sido mais difícil para cada um. Se a dificuldade estava em ficar tanto tempo acordado? Padre Carlos respondeu:
_ Para mim o que foi mais difícil foi ficar tanto tempo sentado olhando esse queijo em cima da mesa e não comê-lo.
Ele não negou sua mineirice.
Era para irmos embora hoje bem cedo, mas não pudemos voltar com o DSEI porque tiveram que levar outros pacientes. Pedimos carona para os militares do exército que descerão amanhã numa voadeira de motor 90.
Gabriel contou que tempos atrás um homem saiu para caçar onça. Na hora em que ela apareceu, ele atirou, mas a espingarda falhou e a onça mordeu a cabeça dele. O filho, que estava presente, teve que matá-la com um terçado. Vi a fotografia da cabeça dele furada, arranhada, faltando um pedaço e a fotografia da onça morta, vazia de carne, só no couro amarelo e preto.
Partimos às oito da manhã. A despedida do padre foi emocionante. Ele abraçou apertado. A descida até S. Gabriel foi em 4 horas. Uma cena engraçada foi ver os sargentos em seus respectivos uniformes militares, ouvindo música dividindo o mesmo fone de ouvido.
Padres, indígenas, militares, palhaços: todo mundo é feito de gente.
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4 pessoas fizeram comentários
kiko disse em 18 de Agosto de 2008 às 10:41 pm:
Bife Quinan, meninas lindas… o sitio na internet tá ótimo, bonito de ouvir as vozes de vcs, cheio de surpresas, repentes. Tá pra mim aqui dentro de meus olhos que nem xixi de nenê recém-nascido, clareando tudo.
Dei risada e mordi o dedo de tão gostoso que foi ver os 2 vídeos.
Parabêns 100!!
kiko vianna
maristela . palhaça MUN disse em 11 de Setembro de 2008 às 2:40 pm:
oi meninas ..
aodrei o que li de vcs na amazonia muiot uinteressante ..
olha só sou bahiana e estou fazendo pos -graduação em Volta Redonda mais etou residindo no Rio de Janeioro já faz 9 meses pois só tenho aula aos sabados .. e minha monografia e sobre o universo feminino da palahaça e gostei do trabalaho de vcs gostarioa muito de manter contatos .. vamos conversar um pouco??
beijos
Ivanilde e Saimon disse em 18 de Outubro de 2008 às 12:24 am:
Oi pessoal! C
Como vão todos, eu e saimon estamos com xaudades de todos. Vocês deixaram muitas xaudades, pro Saimon men se fala, desejo a todos um bom trabalho, que DEUS os abençoe. Vamos sempre manter contatos, tá.
Um beijão a todos.
Paulo Antonio di Lorenzo disse em 4 de Janeiro de 2009 às 6:56 pm:
Olá pessoal, sempre tive vontade de pertencer ao Doutores da Alegria,ocorre que ao navegar pra saber coisas de S.Gabriel da Cachoeira-AM onde irei até o Neblina em setembro 2009 (se Deus quizer) encontrei voces parabens e um abração.
paulodlorenzo@mail.com

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