Cachoeira do Aruã (PA)

19/10/2008

Saindo do porto de Manaus, rumo a Santarém, avista-se por alguns quilômetros a refinaria da Petrobrás com muitos navios e tonéis, um deles chama-se Nilza. Ouço em reticências um senhor dizer ao outro: _ Agora que estou vendo… um navio cargueiro-petroleiro desse tamanho… com o nome da minha irmã Nilza, olha só que coisa…

Passamos no encontro da águas dos rios Negro e Solimões. O irmão da Nilza, que continua aqui ao lado falou para a senhora: _ A água do rio Negro é muito pesada, você vai sentir quando passarmos para as água amarelas que o barco até vai mais rápido. Os rios chegam a borbulhar na hora do encontro. Parece que brigam um com o outro.

_ Eles brigam, mas esse aqui (o Solimões) acaba vencendo.

Agora é noite aqui no barco. O barco aportou em Santarém. Eu também aportei.

Pegamos o ônibus para Alter do Chão. O calor é forte e o ônibus vai enchendo e enchendo. Entra um isopor cheio de peixe, só os peixes, sem nenhuma pessoa. O homem deixou e foi embora … ô mingau de peixe!… todos riam. Entra criança, entra mulher, homem, senhores e senhoras, carrinho de picolé. Um homem senta na caixa de isopor, por falta de espaço. A caixa quebra. As pessoas comentam. Esse fê-la da puta! O motorista deixa entrar a quantidade de gente que couber como sardinha enlatada, até peixe sem dono entra. As pessoas reclamam disso, mais ao mesmo tempo dão risada, tiram sarro. Depois de 50 minutos assim, chegamos.

O rio está cheio. Não tem praia, mas tem as borboletas amarelas quem vem procriar, anunciando a estiagem. Noite alta, tomamos banho vendo a lua baixa minguando amarela. O rio estava calmo, quase dormindo. Hoje dormimos na varanda. Os macacos guaribas começaram a disputa entre bandos com seus urros. Todo mundo acordou para ouvir. Eu não quis dormir depois disso, não que eu tenha perdido o sono, fiquei sentindo os cheiros e ouvindo a mata em festa noturna. Tantos sons… até pica-pau eu ouvi. Também esteve presente nessa noite o Urutau, com seu canto melodioso que não sabe se ri ou se chora… Perdi o sono de felicidade.

Perto de muita água , tudo é feliz (Guimarães Rosa)

Seu João que é o condutor do barco que nos levou a Cachoeira do Aruã, diz que cada um de nós tem um guia que Deus deu pra gente. E que nós devemos ouvi-lo, pois é a nossa proteção, o nosso zelador. Disse que a mãe natureza é forte e soberana. Ele navega há 35 anos. Está com 48 anos. Anda por esses rios desde os 13. Diz que tem horas que é muito difícil. _ O rio Amazonas é violento, o Tapajós é perigoso e o Arapiuns é acolhedor.

Por esses rios ele navega.

_ Vocês são palhaças, eu sou marítimo, ele é barbudo.

Ele não tem medo da morte, acha que lá deve ser melhor do que aqui, pois se assim não fosse, o povo que já foi, voltaria. Se não voltou é por que lá está bom.

_ Qual a sua paixão Seu João?

_ Pela vida.

As expressões do rosto de João são como braços de rios…

Fizemos palhaçadas com o palhaço Pimenta, filho do Pimentinha e responsável pelas palhaçadas nessa viagem do barco Abaré. Ele propôs uma gag: o Branco, duvidando da inteligência do Augusto, pede que ele diga 3 palavras que comece com a letra T. O Augusto pensa, calcula e responde: vaca, jerimum e pinico. O Branco não entende onde está o T de vaca. Ele esclarece:

_ Na teta.

_E no jerimum? Não tem nenhum T.

_ (pensando) Je jê, ri ri, mú mu.  O T está no talo e na talhada (faz o gesto de cortar).

_ E no pinico, onde está o T?

_ Na tampa, no tolete e na trovoada (fala trrrrrrovoada, imitando o som do pum).

O trabalho hoje foi às 16:30hs com o sol um pouco mais moreno. Rosivaldo, marinheiro do Abaré e nosso velho companheiro, virou poeta nos últimos 2 anos. Para quem não muito dizia com a boca, ele agora deu para inventar mundos debaixo d água.

Na casa de Ana, Bifi tomou uma poção mágica que Quinan foi buscar com os índios para fazer seus dentes reaparecerem, pois haviam fugido da boca. As crianças jogavam água nos pés, na cabeça, mas não adiantava… Acabamos com uma despedida que virou eco.

Almoçamos com Mauren e Daniel que nos contaram de uma comunidade chamada riozinho de Anfrísio. Disseram que lá tem muita onça. Uma vez as meninas estavam descendo o rio e a onça, que estava na água, deu um bote subindo na canoa. Cada uma pulou de um lado, nadando rapidamente até a margem. As duas ficaram observando a onça descer o rio, sozinha, sentada dentro da canoa.

Uma menina estava tomando banho no rio e levou um bote da cobra-grande (sucuri). Ela se agarrou no pau, a avó dela ajudava puxando pelo braço de um lado e a cobra puxava pelo outro. A jovem ficou no meio rezando alto.

Na praça de Alter encontrei o medico Rafael. Ele estava trabalhando em Juruti e tinha acabado de pedir demissão. Ele diz que lá não tem nenhuma estrutura, não tem material, medicamento para o hospital, mas vai a banda Calipso fazer show lá e recebe 150 mil. A Alcoa acaba de chegar na vila com 5 mil trabalhadores e a conseqüência disso foi cachaça e prostituição.

_ Então você está desempregado?

_ Você já viu um pediatra desempregado? Agora mesmo acabei de atender uma menina na praça com bicho de pé. Palhaço e pediatra nunca ficam desempregados, por que trabalham com as crianças.

Pegamos carona com Borô até Santarém, tomamos açaí e despedimos dele no porto. Estou agora no barco “Viajeiro” que sai às 18 horas para Macapá. Partimos com o barco lotado de pessoas e mercadorias, as redes batendo umas às outras. O barco ganhou o rio Amazonas com chuva. Dormimos.

Hoje o céu está de nuvens.

O gavião acompanha o barco na mesma velocidade. Ele está nos pescando.

Ao chegar em Tucumã, seis crianças do mesmo tamanho e corpo de sete anos vieram correndo ver o barco. A senhora ao meu lado falou: _ Esses aí são todos da mesma firma.

Um corpo

É um rio

Com braços

Pego o remo e navego.

Cada um está num silêncio. Como habitar o mesmo instante?

3 pessoas fizeram comentários

anônimo - Gravatar

anônimo disse em 28 de Outubro de 2008 às 11:28 am:

Juro ti lembrar

Erê! Um galante na proa
Eu digo o que vim pra contar
Usando as palavras que ouvi
Telelém… juro ti lembrar
Telelém… telelém…

Balança gaiola de rio
Espera a rede dançar
Quem vem aqui é bem-vindo
Quando se faz respeitar
Se chega somente pedindo
Mulher, tabaco aluá
É certo que melhor é ir indo
Ser bem-vindo em outro lugar

Vim morar num piantã
Erê! Encontrei meu lugar
De cantar o telelém…
Na terra que vai para o mar
Telelém… telelém…

anônimo - Gravatar

anônimo disse em 29 de Outubro de 2008 às 10:32 am:

Alter do Chão

A água que risca bonito
Meia lua de areia
Numa terra sem rabisco
Erê! Alter do Chão…
Telelém… telelém…

Olhos de jacarés
Em breu de imensidão
Esturro de guariba
Gritando pra escuridão

Reconheço minha voz
No timbre de cada chão
Urutau canta escondido
Escondendo a direção

Meu sono é felicidade
Vigília no coração
Em volta de cada cheiro
Lua baixa deixa o clarão

E quando estou dormindo
Sou rio de mansidão
Na noite esparramada
No meio da cerração

Erê! Alter do Chão…
Palavra conta o que quer
Varando cada segundo
No canto que dança o sairé
Telelém… telelém…

abdul - Gravatar

abdul disse em 16 de Novembro de 2008 às 6:58 pm:

ouvi esta reprise do palhaço pirulito de marabá - Pa

primeiro o branco pergunta as tres palavras com T pro augusto e ele diz as certas. o augusto devolve as perguntas, e o branco responde as duas primeiras certas e a última “panela”

- mas panela não tem T
- tem T
- num tem T
- tem T
- num tem!
- tem!
- e onde é que ta o T de panela!?
- ta na tampa! seu burro!

agora o augusto: - ah é! ele me pegou, agora sou q vou pegar ele!
ei! agora é minha vez de dizer as três palavras com T, eu sou é muito intelijumento!

branco: - pois então diga…

- tesoura
- tem T
- tatu
- tem T
- e linguiça
- tem… opa! linguiça não tem T!
- tem T
- num tem T
- tem T
- num tem!
- tem!
- e onde é que ta o T de linguiça!?
- na na tripa! viu só… ele me pegou na tampa e eu peguei ele na tripa! (faz o movimento de colocar a tampa da panela, e na hora da tripa projeta o quadril pra frente)

bascana!

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