Mazagão Velho (AP)

22/10/2008

Um dia inteiro para chegar. Duas balsas é preciso para atravessar os rios.Chegamos no fim da tarde na pequena cidade toda enfeitada com bandeirinhas, as nuvens amarelas de sol poente.

viemos lá de Marrocos

para uma vila habitar

revivemos nossa história

num cantinho do Amapá

Mazagão Velho foi fundada em 1770 para abrigar 163 famílias de colonos lusos vindos da costa africana, em decorrência dos conflitos político-religiosos entre portugueses e mulçumanos. Essas famílias e seus escravos chegaram ao local por volta de 1771.

A maior festa de Mazagão Velho é a de São Tiago e acontece todo ano no mês de julho onde é feita a representação desse conflito. Um verdadeiro teatro a céu aberto.

A galinha morreu de paixão. Apaixonou-se por um galo que não quis saber dela. Não é aconselhável comer uma galinha nessas condições de morte, pois a paixão passa para a pessoa que come. A Edna foi quem falou. Em seguida eu disse: é melhor levar mordida de jacaré do que pegar barriga de boto rosa. Fui eu quem falou, a Edna concordou.

Aqui tem um rio de nome Mutuacá, ele enche e esvazia todo dia. Impermanente.

eu vou, eu vou, eu pra lá.

eu vou subir o rio Mutuacá

A festa do Divino Espírito Santo é um festejo religioso realizado em homenagem ao pombo branco e comandado pelas mulheres da comunidade. A festa começa na sede com um almoço oferecido pelos festeiros do ano, que são escolhidos no ano anterior através de um sorteio. As crianças-meninas, todas de branco com lindos vestidos representam figuras devotas do Divino. A Imperatriz, segundo me disseram é uma representação da princesa Isabel, usa uma coroa na cabeça que parecia estar pesada e incômoda. As mulheres vão ajeitando, mas segue assim.  A Imperatriz fica sentada num trono, ao lado dela tem a trinchante e as outras são as empregadas do Divino que carregam uma representação do pombo branco nas mãos.  Segue-se a procissão até a igreja, na frente vai um rapaz que carrega uma bandeira vermelha com o desenho do Divino Espírito Santo. As pessoas vão atrás acompanhando, fotografando e filmando suas filhas ou parentes que lá estão a exercer uma função de destaque na festa. Assistimos o levantamento do mastro e a troca de coroa. É encerrada essa parte religiosa. Começa o Marabaixo. Todos vão andando pelas ruas e entrando nas casas com música, canto, dança e gengibirra, bebida à base de pinga, gengibre e açúcar. Às vezes acrescenta-se também o abacaxi.  Assim vamos seguindo noite adentro. Mulheres e homens improvisam os “ladrões”, assim são chamados os versos compostos na hora. No momento do refrão todos cantam. As mulheres dançam com suas saias rodadas, os homens tocam a caixa. Ouvi um ladrão que achei bonito:

se tu me dissesse

que me tinhas amor,

eu caia em teus braços

como o sereno na flor.

Netinho convidou o Fred para tocar na festa da Alvorada à N.Sra da Luz nesta noite. Ele ficou de bater na janela às 2:30 da madrugada para nos acordar.

Enquanto a festa de Marabaixo é feita pelas mulheres, a Alvorada é feita apenas pelos homens. Acordamos com as batidas na janela e os fogos de artifício. Levantamos e fomos encontrar os Foliões na casa de seu Mururé. Virando a esquina já dava para vê-los todos sentados esperando o tambor esquentar no fogo. Reconheci seu Raimundo e seu José Branco com seus largos óculos. Noite alta. Todos sonolentos. Raimundo levava a cruz enfeitada de fitas. Herdou essa função de seu pai, que levava a mesma cruz. Raimundo é fazedor de cavalinhos de miriti usados pelas crianças na festa de São Tiago. São cavalinhos feitos dessa madeira que é levíssima, tão leve como um isopor. Os cavalinhos são enfeitados com papel crepom. É encantador. Os cavalinhos e ele.

Netinho foi o comandante da festa. Levava o pano santo decorado e o vestia cada vez que entravam numa casa. Os instrumentos ficaram por conta dos outros: dois tambores chamados de macaco (um amassa, outro repica), os mineiros ou tabocas, uma flauta de madeira, um reco-reco, um cavaquinho, um violão e a bandeira de N.Sra que abria os caminhos, guiando o cortejo de Alvorada.

Entramos na primeira casa com a reverência da cruz e da bandeira abrindo a cantoria das vozes masculinas. Uma música religiosa dentro da casa, outra no pé do altar e depois um batuque com os dois tambores, também diante do altar. Depois foi hora de merendar o café-doce com bolacha. A senhora e seus filhos esperavam em pé a louvação.

glória no céu se deu

no rosário de Maria

se Deus não viesse ao mundo

ai de nós o que seria.

Na saída, uma conversa entre a mulher, seu irmão Netinho e Mururé:

_Ei mana, você tem que jogar remédio para matar essas formigas aí na frente. Ou então esfumaçar no dia de Alvorada, senão ninguém agüenta!

_ Mas eu joguei…

No caminho, entre uma casa e outra, pequenas frases capturadas na noite atualizavam os assuntos cotidianos. Frases soltas misturadas com rojões, relincho de cavalos e galo dando sinal de dia. Frases para acordar a alma, o espírito, para ajudar a cantar a melodia, pagando todos juntos à mesma promessa de fazer festa para a Santa com cara de menina.

_Você vai ver que carinha de menina ela tem.

Eu mesma, que não costumo ser de santos, aproveitei o sentimento para pedir pela minha família, pelos amigos e para os queridos que já se foram. Rezei comigo as minhas palavras.

Na última casa todos se ajoelharam e rezamos um pai-nosso e uma ave-maria. Existe uma pedra vinda da África, onde cada folião deve ajoelhar e rezar sozinho. O comandante da festa diz quem deve fazer a penitência, mediante o comportamento de cada folião durante a Alvorada (se cantou com respeito, se estava de calças, sem camisa de time de futebol, se não fumou nem bebeu). No caso de hoje apenas o comandante se ajoelhou para representar todo mundo, inclusive nós, os visitantes.

flor, flor, flor

flor do Ambé

quem tem olhos vê

só se engana porque quer

Na conversa de varanda à noite Paula, Angelina contaram que os entendidos (benzedores) não trabalham num determinado dia da semana. Contaram sobre o irmão de Paula. Quando ele tinha 5 anos, ela pediu que levasse umas mangas de merenda para sua mãe na roça. Ele foi, mas desapareceu por muitas horas. A vila inteira procurou. Só encontraram o menino às 3 horas da tarde sem nenhum machucado. Ele disse que estava indo pro roçado e não se lembrava de nada. Os entendidos diziam para ele nunca se aproximar do rio, mesmo porque ele não sabia nadar. Ele sempre obedeceu, mas aos 18 anos, no meio de uma conversa com um amigo disse sem mais nem menos: _Espere aqui que já volto. Foi até o trapiche, tirou os chinelos e mergulhou. Morreu afogado.

_Os entendidos disseram que a pessoa sente “aquilo” chamando e nem percebe o que está acontecendo.

_ Aquele rapaz que vai passando ali (apontou) quando morava naquela casa (apontou) sempre escutava, mais ou menos às dez da noite, passos de gente na estrada. Todo dia era igual. Uma vez ele olhou na janela para ver quem era e viu um padre de bata e chapéu grande, pretos, tipos esses trajes antigos que não existem mais. Passou e sumiu depois daquele arco (apontou). A partir desse dia ele ficou doido. Foi benzido, tratado com chá e só depois de um ano ele ficou bom.

Uma criança de 12 anos morreu afogada no rio Mutuacá. Nessa ocasião havia bombeiros na cidade por causa da festa e eles mergulharam horas procurando o corpo e nada de encontrar. O povo, então, colocou uma vela numa cuia virgem e soltou com cuidado na beira do rio. Onde a cuia parasse, lá estaria o corpo. E assim se deu o fato. A cuia parou e ficou rodando no mesmo lugar. Os bombeiros mergulharam e encontraram a menina.

Fui dormir no meio de tantas estórias que ouvi ontem. Imagens surreais, sonhos coloridos, imagens gravitacionais.

Josué ao responder se ele era nascido em Mazagão: _ Nascido, criado e praticamente morrido aqui.

Conhecemos Zezinha que nos contou a história da festa de N.Sra Aparecida. Ela tem 85 anos, segundo ela de danação.

Escute só o resumo da história, disse ela.

Um casal de negros africanos deu luz a uma menina branca, de olhos azuis que cresceu no meio dos negros e era tida como uma rainha. Nos seus 15 anos ela não quis festa, quis um barco de presente para cruzar o Atlântico. No terceiro banzeiro do mar, o barco afundou e ela foi pega por um bicho que a levou para o fundo. Ela virou metade peixe. Depois de muitos anos ela voltou, aparecendo na praia. A menina voltou para ensinar como fazer uma festa em homenagem a ela. Ensinou a fazer gengibirra, a tocar tambor e a cantar ladainha. Fundaram a festa na África. A família Luz e Macedo trouxeram a festa pra cá, pro igarapé do Lago.

aonde tu vai rapaz?

vou no mundo passear

na fresca da madrugada

antes do galo cantar.

_Bifi, vamos para casa que a noite já está chegando e o mundo já vai dormir.

_O mundo vai acabar?!

Criança: _ Vai, mas amanhã tem mais de novo. Ele só fica enrolando.

4 pessoas fizeram comentários

Márcia Corrêa - Gravatar

Márcia Corrêa disse em 22 de Outubro de 2008 às 8:02 pm:

Que emoção boa…

Márcia Corrêa - Gravatar

Márcia Corrêa disse em 26 de Outubro de 2008 às 2:27 am:

do pó da terra solta
nasce o florir da saia
roda colorida do tempo
movendo moinhos da história

vem de lá menina moça
atravessa a madrugada
vem cantar tua saudade
na beira de rio da memória

Mazagão acorda em festa
vai brincar, fazer folia
fazer graça em sua corte
com as princesas da alegria

anônimo - Gravatar

anônimo disse em 3 de Novembro de 2008 às 10:10 am:

Rede de água

Erê! Tomei açaí
Atei minha rede no ar
Dormindo foi que me vi
Navegando pra Macapá
Erê! Telelém… nessas águas
Que sonho tem pra sonhar
Que chuva leva meus olhos
Esperando a saudade passar
Erê! Telelém… adormece
Que a noite vai navegar
Em volta de cada silêncio
Que ela tem pra contar
Vai levando o Viajeiro
Na forma de balançar
No rio que vira rede
Enquanto caminha pro mar

Erê! Terra Tucujú
Telelém… amanhã vou chegar
Atracando em Santana
Com sonhos que aqui vim sonhar
Telelém… telelém…

anônimo - Gravatar

anônimo disse em 3 de Novembro de 2008 às 10:21 am:

Erê! Mazagão Velho

Passo do novo pro velho
No dia inteiro de chegar
Na festa que é do Divino
E o marabaxo vai contar

O telelém canto baixinho
Com intenção de rezar
Minha oração de folia
Que trouxe pra festejar

Aumento qualquer alegria
Que é nela que sei lutar
Sou como o santo Tiago
Que chega de todo lugar

Erê! Mutuacá
Feliz em sua jornada
Vim lavar nessas águas
Cansaço e pó de estrada
E trazer o meu caminho
Pra perto de sua braçada
Erê! Telelém… telelém…

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