Cabaceiras (MA)

14/12/2008

Conheci S. José do Ribamar por 15 minutos, foi o tempo de encontrar o cais. Bonita a praça em homenagem à S. José que está “arriba do mar”. Entramos no barco às 17:00hs e ficamos esperando a maré subir. Atamos nossas redes .Claudete conhece muito bem a região, contou da ilha do Gapó, um lugar de encantados , que todos que dormiram lá voltaram com enjôo ou febre… onde tem um touro encantado (Boi Turino) que é a encarnação do rei Sebastião. Ele anda com uma enorme corrente e quem pegar nela é levado para o fundo do mar.Igual na ilha de Lençóis: dizem que de lá ninguém pode levar nada, nem uma pedra ou punhado de areia, senão o barco não desatraca.

Estamos agora no barco Rio Jordão, atravessaremos 3 baias: de S. José, de Sarnambi e Tubarão.

Chegamos com o dia amanhecendo.

Logo apareceu seu Dá, apelido de Adail, no casquinho (como é chamada a canoa aqui) que nos conduziu pelo rio São Lucas à remo até a vila de Cabaceiras. Atracamos no pequeno cais, afundamos os pés na lama. Estamos no mangue.

Lá chegando, Dá nos levou à casa de Jocinho, filho de Zé Mariano. Ele estava na escola e nos recebeu, mas pediu pra falarmos com o pai dele que é quem comanda o lugar. Fomos.

_ Dá licença.

_ Pode ir entrando que a casa é nossa.

Depois dos cumprimentos, explicamos o que nos trouxe aqui. Ele:

_ Palhaçadas, é?

_ Sim. Viemos fazer nosso brinquedo de palhaço e viemos conhecer o senhor, pois disseram que é curador.

Ele riu que se encolhia e deixou escapar, reticente:

_ Esse nome é curioso: curador… Riu de novo.

 _ Mas curador aqui é Deus. O que tenho é o que chamam de dom.

Vim salvar terreiro, terreiro eu vim salvar. Vim salvar a Santa Bárbara e todos os orixás do mar.

Cabaceiras, um lugar.

Antigamente tinha muita cabaça lá.

José Mariano, um homem de força e fé.

Chegou nesse lugar há 30 anos.

Lá, nada não tinha. Apenas uma casinha.

O homem comprou e por lá ficou.

Por gosto, por destino.

Mais casas foram sendo feitas.

O lugar foi se habitando de gente.

Gente que acreditava na verdade de Mariano.

Gente que se curava pelas mãos de José.

Gente que se juntava ao Tambor de Mina de seu José Mariano, que como diz ele é uma escola.

Tem aluno dentro e tem aluno fora.

Gente que ia para brincar no boi de orquestra desse senhor.

Gente que participava da festa do Divino Espirito  Santo.

Dona Riba, Roberta, Evarista, Liandro, Domingas, Zezé, Lurdinha, Sonia…

O lugar se encheu de vida e de festa.

A galinha subiu no tonel de água limpa.  Roberta pediu:

_ Dá uma pata nela pra mim que ela já vai fazer pintura (cagada).

Bifi e Quinan foram visitar Zé Mariano com o verso: ô de casa, ô de fora, diga logo quem está aí…

Saudamos e pedimos conselhos para resolver o problema do chulé de Bifi. Ele ria aquele riso traquinado e acabou dando uma receita de verdade:

_ Passa mucunan com azeite de andiroba, lava o pé bem lavado e molha toda noite. Bota a água no vidro de desodorante e borrifa toda noite.

Bifi: _ Mas quem é que vai molhar pra mim toda noite?

Mariano: _ Você mesmo faz.

Bifi: _ Mas dá uma preguiça.

Mariano (rindo):  _ Ahhhh, mas então não quer ficar boa! 

Gira  gira  no tambor.

Gira gira com ardor.

Gira gira pro encontro

Ai que quando gira parece que tudo clareia.

Mais quem é que tá girando?

Se a terra sempre gira e às vezes eu penso que tô parada?

Vou girar, vou girar, que uma hora eu vou chegar.

Cavaleiro na porta bateu, o Aruanda vai ver quem é.É São Jorge guerreiro, comandante da força e da fé.

Santa Bárbara já saudamos.

Agora a festa é para o Divino Espírito Santo.

As mulheres tocam caixa para o pombinho verdadeiro,

Os homens vão buscar os mastros, são três. Grandes troncos de madeira cuidadosamente pintados. Cada qual de um tamanho.

O mastro é benzido com uma vassorinha de planta e água benta por um casal.

É chegada a hora de levantar o mastro. As caixeiras tocam Oliveira.

Os homens levantam o mastro, a bandeirinha no alto balança com o vento.

Viva o Divino Espírito Santo!

Mais dois mastros são levantados, um na frente da igreja e o outro na frente da escola. No alto mais duas bandeirinhas que com o vento balançam. Uma tem o desenho do Divino e na outra uma coroa.

As caixeiras dançam ao redor do mastro, o menino Sebastião segura uma bandeira.

As caixeiras entram no terreiro e continuam cantando com suas belas vozes. Alvorada nova, novas alvoradas… Mariano está deitado na rede, pois suas pernas já não podem muito. Sua presença é essencial. Ele ouve.

Acordamos `as 4:30 da manhã com a chegada do trator. Chegamos em Cabaceiras de casquinho e partimos de trator, que nos levava pelo areal rumo à Humberto de Campos.

Hora em que eu ria internamente era quando o trator mudava de marcha na subida. Todo mundo num mesmo movimento, para frente e para trás, sonolentos.

3 pessoas fizeram comentários

carol - Gravatar

carol disse em 16 de Dezembro de 2008 às 10:42 pm:

acho que na volta você podiam trazer um pouco desse mucunam aí…
=o)

Maria Cristina Galante - Gravatar

Maria Cristina Galante disse em 26 de Dezembro de 2008 às 5:24 pm:

Queridos

Que viagem bonita vocês estão fazendo. Quanta gente, de todo jeito…
Até breve…Cris (Mã)

Cleia - Gravatar

Cleia disse em 7 de Janeiro de 2009 às 2:57 pm:

Ê Brasil véio sem porteira !!!!

Que coisa boa é viajar de carona com vocês por aí a fora!
O diário de bordo publicado no Boca Larga II é demais.Sou nordestina e de saudade em saudade,vez em quando viajo com vocês por lá…Interessante foi ver o circo sob outra perspectiva - a do artista.Me lembro muito bem - e como lembro- dos circos que chegavam na minha distante cidade…o que ficava era a beleza do espetáculo! Era isso que importava; ninguém parava pra pensar na vida que ‘tava por trás dele…nas vidas que geravam aquela beleza toda…
Parabéns pelo presente sem preço que Deus lhes deu: o dom de serem artistas.

A-do-ro vocês!!!!

Quinan, o Hosp.Campo Limpo não esquece de você.

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