Taracuá - rio Uaupés (AM)

15 de Julho de 2008

Do dia 14/06/08 à 03/07/08

Estamos subindo o rio Negro que é belíssimo. Águas escuras, antigas. Um gavião acompanhou durante muito tempo o barco que anda a 12 Km/hora.  O comandante é seu José que usa uns óculos que torna seus olhos maiores do que são. Para que eu não perdesse o café da manhã, ele me acordou com uma cutucada no cocoruto, igual a um pica-pau. Durante a novela das oito, haviam oito homenzarrões grudados na TV com sorriso no canto da boca.

Chegamos ao meio dia. A chuva parou. O barco atracou em Camanaus onde almoçamos rapidamente. Dali pegamos um ônibus de linha para o centro de S. Gabriel. Ouvi um comerciante contar que havia sido assaltado. Que o cidadão fez amizade com ele, se oportunou de um momento de distração e levou tudo que dava pra carregar. Hospedamo-nos no hotel do Zé Roraima. Tudo balançava mareado.

A cidade chega, se mostrando na curva do rio. Ouvi um homem dizer qeu curva do rio tem mau agouro. Fiquei ressabiado. Mas olhei pro lado e tava todo mundo feliz, então fiquei mais calmo. É bom estar com gente feliz, faz lembrar que tem o dia e tem a noite, que tudo na vida tem verso e reverso. (anotações de Frederico)

Fomos atrás do diretor da Foirn (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro) que não estava na cidade, procuramos a Andreza do ISA (Instituto Sócio Ambiental) que nos orientou e explicou a dinâmica da região: são cinco calhas, assim chamamos os rios que desembocam em S. Gabriel (rios Uaupés, Tiquié, Içana, Xié e Negro). Em cada rio, existem diversas etnias que moram misturadas em toda bacia do rio Negro cujos troncos lingüísticos são principalmente tukano, arwake e maku.  A maioria fala sua língua natal, português e tukano. Na Foirn existem 5 diretores, cada um representa uma calha de rio.

A população de S. Gabriel é 96% indígena. Andando nas ruas ouve-se muita gente falando na língua.

Conhecemos Erivaldo, um dos diretores da Foirn, com quem tivemos uma ótima conversa. Ele é nascido em Piratapuia no rio Uaupés, nos contou um pouco sobre as missões Salesianas, que atualmente existem até padres indígenas e hoje o diálogo entre todos é bom, mas que já presenciou muitos padres quebrando os instrumentos musicais dos índios dizendo ser coisa do demônio.

Erivaldo nos levou para conhecer André do DSEI (Distrito Sanitário Especial Indígena), que nos apoiará logísticamente para subir às comunidades. De tarde andamos atrás de Socorro, a diretora da escola de Camanaus para ver a possibilidade de trabalharmos lá.

S.Gabriel tem uma paisagem diferente do que eu já havia visto na Amazônia, é cercada por alguns morros. Um deles é chamado de bela adormecida (por parecer com uma mulher deitada). O rio Negro nasce na Venezuela cuja formação rochosa é a mais antiga do planeta.

O céu daqui tem forma de ninho. Ninho de homem. E eu que nem sabia que a gente tinha ninho. Bom saber, nem dá medo de morrer. Se der de morrer aqui, morre certo, no lugar de onde se faz vida. Aqui a gente morre feliz, pois é daqui que se nasce de novo. (anotações de Frederico)

Combinamos com Socorro de ir à Camanaus trabalhar e participar da festa de S. João. Compramos comida, deixamos os documentos para a devida autorização da Funai (por nossa estadia por 10 dias em terras indígenas), compramos gasolina para a voadeira e pegamos o ônibus que nos deixou no porto de Camanaus. De lá atravessaremos para a ilha, são 10 minutos de travessia.

Camanaus é muito bonita, cheia de açaizeiros, muito preservada, com um campo de futebol no meio. Aqui moram 36 famílias. Todos já estavam à nossa espera. Socorro nos levou para conhecer a escola e nos alojou no antigo posto de saúde, que hoje não funciona por falta de recursos. Armamos nossas redes.

No fim do dia, antes de anoitecer, o sino da igreja tocou muita gente foi a um encontro que era um pouco de missa (feita por um padre indígena) misturada com reunião comunitária para organizar a festa. Vimos duas senhoras indo para a igreja, cada uma com sua lanterna. Falavam na língua delas. Quando nos viram, perguntaram se éramos enfermeiros. Dissemos que éramos palhaças. Ela nos contou que há muito tempo veio um grupo assim, ela não sabia se de SP ou RJ. Disseram que gostaram muito.

_Como era o nome do grupo?

_ Não sei não. Isso a gente esquece.

Acordamos 6 da manhã, preparamos tudo para a intervenção. Tivemos cenas bonitas com as senhoras varrendo a vila, as crianças nos acompanhando seguindo, Bifi fez um pedido à S. João (santo da festa de hoje e amanhã), tudo que pedia era com ão. Encontramos com uma procissão que ia pedir esmola de casa em casa com um senhor tocando um tambor desafinado. As que estavam em casa (pois a maioria estava na procissão mesmo) davam bananas, cupuaçú, cana de açúcar, farinha. Tudo isso eles penduraram no mastro que foi erguido às 5 da tarde, hora em que a maioria das pessoas já estava embriagada.  Depois disso rezaram uma ladainha e acenderam um barco com velas que desceu o rio e logo se apagou. Foi uma festa católica feita pelos indígenas. Era como se aquelas palavras não coubessem naquelas bocas.

A festa e a cachaça duraram a noite toda. Teve briga, choveu, o som ficou no último volume com o brega eletrônico. Ficamos retirados na cozinha da escola conversando e o café da manhã emendou no almoço. Quando fomos devolver a chave e arrumar alguém que nos atravessasse de volta, passamos na festa. As pessoas estavam em pé só por teimosia.  Atravessamos com um rapaz, pegamos uma lotação até o hotel do Zé Roraima.

Conheci Domingos, outro diretor da Foirn. Ele explicou o papel da Foirn na região, falou que a tradição indígena já se perdeu muito com a chegada dos Salesianos, contou que o Triângulo Tukano (jogos entre tribos de língua Tukana: Pari-Cachoeira, Içana, Iauaretê, Taracuá e Piraquara) antigamente era feito para troca de experiências, para fazer festa juntos e para jogarem. Hoje esse encontro é tudo isso e um pouco de campanha eleitoral. Contou-nos que ia à um encontro no RJ, mas que não foi porque lhe enviaram somente o trecho de Manaus-RJ. Ele escreveu perguntando onde estava o trecho para chegar em Manaus. Responderam: _Pegue um taxi que depois a gente te reembolsa. De S. Gabriel a Manaus são 812 km. Ou seja: três dias de barco ou 2 horas de avião. O Brasil não acaba em Manaus não.  

Saímos na correria como sempre e, chegando ao DSEI tivemos que esperar a voadeira por 1 hora. Ouvi um motoqueiro contar ao amigo: _ Quase eu caí da moto porque entrou uma formiga nas minhas costas. Fiquei imaginando se isso acontecesse só por causa da formiga. Dei risada sozinha com meus pensamentos.

Saímos de S. Gabriel às 9 da manhã numa voadeira de motor 40, viajamos 8 horas pelo rio Negro e depois pelo Uaupés até chegar em Taracuá, que tem 350 moradores e esperam receber para a festa do Triângulo Tukano mais 500 pessoas.  

Mais 8 horas de uma canoa de um motor tão forte que voa. A voadeira. Tem sol, chuva, dor nas costas e gente do mato que sobe junto. Eles me surpreendem pela sua união. Ficam abraçados o tempo todo, sempre felizes. Parece que são um corpo só. (anotações de Frederico)

Alojamo-nos no posto de saúde do DSEI, conhecemos Onofre e Arlindo, dois agentes de saúde indígenas. Arlindo nos mostrou a vila e nos apresentou às pessoas. Conhecemos irmã Íris, irmã Ângela, vimos o campo de futebol onde o time feminino treinava, conhecemos o capitão Sabá (assim chamam o líder comunitário). Ele contou que os Salesianos chegaram aqui em 1920, fizeram a igreja e começaram a catequizar.  Quem não aparecesse nas missas de domingo, o padre ia buscar em casa.  Sabá é professor de matemática do ensino médio, já viajou para SP, RJ e Brasília. Disse que o mundo da cidade é igual a um mato cheio de onças, você pode morrer a qualquer hora. Sempre que se referiu ao mundo dos brancos usou a expressão: _ O mundo envolvente.

Ele ficou curioso em ver as palhaças.

De manhã fizemos palhaçadas. À noite ficamos conversando com Gabriel, o dentista que atua há 3 anos, conhece bem a região e registra tudo que vê e ouve. Nos contou que pajé mesmo nessa região do alto rio Negro só existem uns 5, mas que estão todos nas comunidades colombianas. Disse que os pajés fazem cirurgia e os rezadores cuidam da doença. Quando os pajés chupam a doença chega a sair pedra, pena e areia da boca deles.

Fizemos palhaçadas à tarde, visitamos os bairros mais distantes. Chegou muita gente no posto de saúde, inclusive dois pacientes. A casa está lotada.

Manoel para Marta na cozinha:

_ A pimenta da casa das freiras não arde nada não. Serve só para temperar.

 Fizemos uma saída (de palhaça) meio xôxa. Acabamos desistindo. Tem dias que não são feitos para palhaços e o melhor que temos a fazer é arribar.

Como tenho estado ultimamente? Assim, assim, peito cheio sem espaço para derramar. Tudo que eu mais queria nesse momento era ficar um pouco sozinha. Tudo tem tanta gente. Queria falar tukano só para conseguir pensar diferente. Queria pensar mais simples, não pensar nada. A gente nunca se contenta? Queria contentar. As crianças passam aqui na frente e me dão um sorriso, parece que consigo ler:  _ Olha lá a palhaça escrevendo. São tão lindas as crianças que me sorriem com cumplicidade. O dia terminou com a noite estrelada. Consegui ficar sozinha ao lado da igreja. A estrela caiu. Inventei um diálogo:

_Vamos adiante, temos que caminhar se quisermos ver o céu estrelado.

_ Não, não me faça olhar que sofro demais.

_ ?

_ É que as estrelas me fazem lembrar sem parar. Eu sempre choro, mesmo quando não quero.

_ É desse jeito que você quer chegar lá?

_ … Prefiro ir de olhos fechados… Bifi, vamos logo para o dia de amanhã porque já estou cansada de hoje.

_ Então vamos.

_ Vamos.

Dormi muito mal essa noite. Soltaram rojões às 4 da manhã, levei um baita susto e na consegui dormir mais. Levantei para ver o dia amanhecer. Escuro ainda já começa o movimento na vila. Mulheres na beira do rio banhando, lavando louça e roupas. Homens passando de toalhas e sabonetes. É muito movimentado.

Hoje nosso dia de trabalho foi muito bom compensando a frustração de ontem. Fizemos a gag do “não pode tocar aqui” na porta da igreja. Bifi recebeu benzimento de seu Antônio rezador e as crianças entraram como nunca no universo nonsense das cabaças. Tivemos muitos jogos de palavras e as crianças participando de tudo, conduzindo o jogo.

Pedimos ao padre Carlos para dormir no casarão Salesiano porque estávamos ocupando muito espaço no posto de saúde. Lá ele dorme sozinho e o lugar é gigantesco, cheio de quartos vazios. Ele deixou. Ontem na missa que o padre rezou havia 3 pessoas. Hoje tinha mais gente (umas 30).

Estou lendo um livro que ele me emprestou “Crenças e Lendas do Uaupés” escrito pelo padre Alcionílio Bruzzi. Recolho alguns trechos:

- na cabeleira escura dos indígenas dessas várias tribos há um fio de cabelo ruivo: é o Ke~e-ri-poa, literalmente “cabelo do sonho”. A esse fio atribui o fato de sonharem quando dormem.

- a primeira urina da criança recém-nascida, quando esfregada sobre os olhos é um remédio eficaz para os incômodos da vista, faz os anciãos recuperarem a visão perfeita.

- de manhã deve-se tomar alimentos quentes. Se tomar frio, os vermes ficam irritados.

- quem preparar o cacuri (curral para pesca) não deve comer coisa verde, por exemplo, a banana assada, a pimenta. Se o fizer, nenhum peixe será apanhado.

- a mulher que come devagar e não obedece ordens recebidas terá um parto demorado.

- quando um rapaz está para se casar não deve pegar em tipiti. Se o fizer, dizem que sua mulher será muito gulosa.

- O costume de tomar banho todas as manhãs bem cedinho é para ficar sempre jovem.

- quando uma pessoa está caminhando e cair uma folha seca sobre ela é sinal de que ela vai encontrar uma velha ou uma viúva.

- ao avistar um boto, se a pessoa cortar a água do rio com um facão, o boto saltará furioso.

- quem come alimento frio e em seguida vai à mata, será seguido pelo Curupira (aqui também chamado de Boraró).

- quando uma criança se põe a chorar sem nenhum motivo real, é sinal de que vai chegar algum forasteiro.

Hoje fizemos bolo de mandioca para a felicidade do padre Carlos. Ele nos contou que antigamente na frente da igreja havia um busto do Juscelino Kubitscheck, o único presidente que já pisou ali. O busto foi derrubado porque os índios ajoelhavam-se fazendo reverência como se ele fosse santo.

Passamos o dia praticamente na cozinha conversando com o padre Carlos, um mineirinho bem engraçado. Entre um quitute e outro saíamos para dar uma volta e ver a abertura do triângulo tukano. Teve apresentação de cantos e danças dos alunos da escola, teve hino nacional brasileiro e colombiano, apresentação das delegações dos times.

À noite fizemos uma rápida apresentação no barracão comunitário, tomamos caxiri, assistimos a competição de quem dançava melhor o brega e, depois de uma cena onde o prefeito, para conquistar votos, jogava balas e pirulitos à todos que se acotovelavam para pegar maior quantidade, fomos dormir.

Padre Carlos nos contou que uma vez foi fazer um curso com um antropólogo que faria um ritual de pajelança para os padres conhecerem. Prepararam tudo, ficaram lá por uma noite toda. Na mesa havia rapé, tabaco e um pedaço de queijo. No fim do processo, o antropólogo perguntou o que havia sido mais difícil para cada um. Se a dificuldade estava em ficar tanto tempo acordado? Padre Carlos respondeu:

_ Para mim o que foi mais difícil foi ficar tanto tempo sentado olhando esse queijo em cima da mesa e não comê-lo.

Ele não negou sua mineirice.

Era para irmos embora hoje bem cedo, mas não pudemos voltar com o DSEI porque tiveram que levar outros pacientes. Pedimos carona para os militares do exército que descerão amanhã numa voadeira de motor 90.

Gabriel contou que tempos atrás um homem saiu para caçar onça. Na hora em que ela apareceu, ele atirou, mas a espingarda falhou e a onça mordeu a cabeça dele. O filho, que estava presente, teve que matá-la com um terçado. Vi a fotografia da cabeça dele furada, arranhada, faltando um pedaço e a fotografia da onça morta, vazia de carne, só no couro amarelo e preto.

Partimos às oito da manhã. A despedida do padre foi emocionante. Ele abraçou apertado. A descida até S. Gabriel foi em 4 horas. Uma cena engraçada foi ver os sargentos em seus respectivos uniformes militares, ouvindo música dividindo o mesmo fone de ouvido.

Padres, indígenas, militares, palhaços: todo mundo é feito de gente.





las cabaças e doutores da alegria nas aldeias Katukinas (AC)

31 de Maio de 2008





à margem da estrada

31 de Maio de 2008

De 28/04/2008 a 21/05/2008.

Pegamos o ônibus de Cruzeiro do Sul (Acre), rumo à aldeia Campinas, a primeira aldeia indígena que visitaremos.

Depois de muitos buracos e de atravessar o Rio Juruá numa balsa, chegamos. A viagem durou três horas.  O território Katukina, é cortado pela BR 364 (que liga Rio Branco à Cruzeiro do Sul no período do verão), e foi asfaltada em 2002. Por muito tempo os Katukinas viveram em diversos rios da bacia do Juruá e há mais de 30 anos moram nas margens da BR demarcada em 1984. Na década de1970 com o inicio da obra, um grupo se deslocou do rio Liberdade e alguns do rio Gregório, a fim de trabalhar no desmatamento necessário à construção da estrada. Após o término da estrada receberam autorização para morar às margens da rodovia. Atualmente sua população é de aproximadamente 600 pessoas divididas em 5 aldeias na BR e 1 no rio Gregório. Muitos se mudaram para cá (restando apenas 40 pessoas no rio Gregório), vieram pela facilidade em receber a aposentadoria, para vender o artesanato e obter os produtos industrializados. As aldeias que margeiam a BR é que são cercadas de fazendas, o barulho da estrada espanta a caça e quando o bicho sai daqui não volta mais, porque os fazendeiros pegam. A energia elétrica e consequentemente a televisão, o rádio, a música brega entram em cena.  No trecho indígena da BR é proibido o consumo de bebidas alcoólicas, filmar, tirar fotografias (a não ser que o cacique de cada aldeia autorize). Não se usa dinheiro para nada.

A primeira aldeia é a Campinas onde se concentra a maior parte da população, onde são feitas as reuniões e onde fica a casa que recebe as pessoas de fora, tal como professores, médicos, ambientalistas, etc. Ficamos hospedados nessa casa.

A língua que falam é do tronco lingüístico Pano. A maioria das mulheres não fala o português. Muitos dos homens falam. Cada aldeia tem uma escola com aulas para crianças e adultos (que aprendem o português). Os professores são indígenas e somente na primeira aldeia tem um professor branco. As crianças começam a aprender o português a partir de 10 anos de idade. Vimos uma cartilha muito bonita de alfabetização na língua deles. Todos têm dois nomes, um na língua e outro em português (disseram que é por que acham bonito).

A segunda aldeia tem o nome Varinawa (povo do sol), a terceira é a Masheya (significa Urucum), a quarta é a Samaúma, e por fim a Bananeira.

Na aldeia Campinas existe uma casa-igreja-católica. Perguntei ao Hoshonawa se tem missa lá.

_ De vez em quando, quando o padre vem.

_ E vocês, vão à missa?

_ Não. Aqui ninguém tem paciência para isso não

O rapé é tradição dos Katukinas, feito com folha de tabaco. O cacique explicou que algumas pessoas, como o pajé, usam outros mais fortes misturados com outras raízes maceradas.

Dormi na rede de frente para a janela. Na madrugada acordei por ouvir vozes e ver clarão de lanterna. Olhei. Eram dois índios caçando alguma coisa. Um subiu no açaizeiro, outro procurou no chão. Estavam caçando Kambô. O Kambô (veneno extraído do sapo phyllomedusa bicolor) é usado para curar doenças e tirar a panema (má sorte na hora da caça). Precisa queimar a pele em alguns pontos e passar o veneno por cima. Dizem que a pessoa fica muito mal, vomita e caga tudo. A definição indígena sobre a panema:  _ É como um carrapato. Ela gruda e você não percebe. Tomamos o Kambô porque ele faz você sentir que vai morrer. Daí o carrapato também acredita e vai embora. Mas você sobrevive e a panema passa.

Fizemos palhaçada na aldeia Campinas. Todos sentavam na frente da porta, agarradinhos, com medo. Depois de tudo isso, Hoshonawa nos faz a seguinte pergunta: _ Essa brincadeira de palhaço de vocês, significa o quê?

As brincadeiras indígenas servem para treinar o corpo para o dia a dia e para brincar mesmo. Por exemplo: a dança em cima da brasa ajuda a calejar os pés, a brincadeira de arremessar o bambu, treina a pontaria; a brincadeira de levar o homem ou a mulher para a poça e se cobrir de lama dá conta das curiosidades sexuais, a de chicotear o outro com o capim cortante cria resistência no corpo. As brincadeiras são coletivas, todos participam com o mesmo papel. O Mariri é uma dança que fortalece os laços do povo. Os cantos celebram a vida.

Chegamos ao centro da aldeia e desenhamos um círculo no chão colocando um pedaço de pau para representar a entrada. Bifi entrou em câmera lenta, eu entrei assim também, depois todas as crianças imitando igual nosso jeito. Todas ficaram agachadas, dentro do círculo, passando a bola no jogo miudinho.

A pintura deles é preta (genipapo) e vermellha (urucum). Preto significa paz e vermelho guerra.

Decidimos subir o rio Gregório para conhecer o lugar onde todos moraram um dia e a vida na mata. O Paulo nos disse que para isso deveríamos falar com o cacique de lá, João Grosso (Rirá na língua). Íamos com Paulo procurá-lo para que nos apresentasse, mas de repente sumiu (tinha ido ver a horta medicinal com Davi) e nós, achando que ele já tinha ido para a aldeia saímos correndo, gritando por ele. Vinha vindo um homem que perguntou:

_ Você perderam o Paulo?

_ É que íamos com ele falar com João Grosso.

_ É, mas esse sou eu.

Conversamos e acertamos tudo em relação à data e combustível para subir até o Gregório.

Existe o presente no viver deles que é tão belo. São frases que saem, olhares que silenciam, movimentos que compõe, a natureza que se destaca. Afirmações e contrários, como quando dizemos:

_ Tá quente hoje? E alguém responde:

_ Frio não tá não. Ou então:

_ Quente né?

_ Quente mermo.

Brincamos de cana e mamão na aldeia Masheya. As mulheres iam com tudo para cima dos homens. O convite para a brincadeira da cana é cheio de malícia: eles se aproximam arrastando a cana no chão até o meio das nossas pernas, até nos deixar numa situação interrogativa. Quem não reagia por instinto podia até machucar os “entremeios”. Mulher puxava de um lado, homens do outro. Quem ganha, fica com a cana. A do mamão era jogar o mamão para seu time, não deixando o outro pegar. Nisso o mamão já ia ficando machucado, pronto para comer. E foi o que aconteceu com o time vencedor. Almoçamos farinha e banana na cada do filho da D. Antônia que tinha 2 jabutis de estimação.

Voltamos à aldeia e nos despedimos das pessoas para seguir rio acima. Combinamos tudo com seu João: domingo na D. Rosa do lado do comercial Ibraim, no bairro de S. Vicente.

Fizemos duas apresentações numa festa que a UGAI - Unidade de Gestão Ambiental Integrada organizou para o dia das mães do bairro de Liberdade e S. Vicente, fora do território indígena. As apresentações foram maravilhosas. Tem um momento que muito me encanta: a gag do palhaço sempre vai crescendo, crescendo, até que chega num estouro, que é normalmente quando acontece a gargalhada. Por aqui onde estamos, encontramos muitos  sorrisos tímidos, cabisbaixos e raros. Acho muito bonito ver quando a gag chega em seu ápice e todas aquelas bocas tímidas explodem para rir. Nesse momento ninguém tem vergonha de nada. Todos ficam iguais.

Combinamos de nos encontrar com seu João Grosso hoje à tarde. Chegamos meio dia e nada dele. Colocamos toda nossa bagagem na maloca de sinuca ao lado da casa de D. Rosa e esperamos. Agora são 22:00hs e ainda estamos esperando. Armamos as redes e estamos pronto para dormir. Passamos a tarde toda com os patos, galinhas, porcos, uma porca gigantesca que está prenha.

Ainda estamos esperando…

Acordamos com o galo cantando na nossa orelha. Passou um rapaz aqui, viu Aro filho do pajé, deitado na rede e perguntou: _ E aí passarinho, tá mexendo com o quê hoje? Só com os olhos mermo?

Ficamos sabendo que S. João só chegaria amanhã, o filho veio avisar que ele estava esperando a liberação de um combustível do Cacique geral dos Katukinas… problemas internos.  Obs.: Pagamos todo o combustível necessário para nossa subida e descida do rio.

… depois de muito deliberar, decidimos esperar mais um dia. Quem sabe a porca dava cria…

Um senhor de nome Antonio, branco, veio nos conhecer porque soube das nossas palhaçadas e queria que fôssemos até os Yawanawás brincar com eles. Eu perguntei se ele os conhecia, ele respondeu: _ Eu morava na divisa da terra indígena. Os Yawanawás moravam perto. Eu construí 3 filhos morando lá com eles.

No fim do dia, inesperadamente, seu João chegou no caminhão. Com ele veio muita gente que também ia subir o rio. Mesmo assim, só partiremos amanhã com o nascer do dia. Passamos a dormir noutra maloca para dar espaço a tanta gente que chegou.





à margem do rio

31 de Maio de 2008

Agora é noite e muitas coisas estão acontecendo ao mesmo tempo nesse lugar que mais do que nunca é chamado de Brasil: missa evangélica na igreja com poucas pessoas presentes e o pastor gritando ao microfone, as mulheres katukinas assam peixe na fogueira feita no meio dos bichos soltos, muitos assistem a novela das oito, outros jogam sinuca, crianças nadam no rio, um calor forte e noite estrelada. Seu Pelado é marido de Dona Rosa e dono da pensão. Ele é de uma família de 4 irmãos que se casaram com 4 irmãs. Todos moram aqui. Eles nos contaram como era a vida antes da construção da estrada. Pelado era um “regatão” - um mascate que viaja de canoa vendendo mercadorias rio afora. A mãe de Dona Rosa é índia, tem 99 anos. O pai de seu Pelado vende bananas e mora numa casa que comporta apenas uma cama de solteiro e muitos cachos de bananas. Na hora em que o gerador for desligado, tudo dormirá junto na mesma noite.

Cá estamos numa canoa motorizada com nós quatro, Aro, Metsa, 5 mulheres e 9 crianças subindo o rio Gregório numa viagem que durará um dia e meio.

A viagem até chegar ao primeiro pouso foi boa, bonita e lenta. O rio estava seco, cheio de árvores caídas o que nos fez ter que descer do barco muitas vezes para empurrar a canoa ou cortar os troncos com machado.

Paramos em muitas casas dos ribeirinhos brancos e índios em busca de um rancho ou farinha. Estávamos sem comida, uma vez que tudo que preparamos para a subida se perdeu nesses 3 dias de espera. Passamos a viagem beliscando daqui e dali.

O som do sapo canoeiro era alto. Seu João soltou uma frase cantada, cansada depois de um dia inteiro de viagem dura. Era em tom de lamento, só que alegre: _ Esse sapo que você está ouvindo… é tão gostosinho ele.

Chegamos por volta das 11:00hs na aldeia Timbaúba, rio Gregório. Haja tanto piun! Para se ter uma idéia, aqui é preciso estar o tempo todo com calça, meias, blusa de manga comprida e ainda ficar com um pano para abanar, porque os piuns fazem nuvem em volta da gente. Até tomar banho na luz do dia tem que ser de roupa. Eles só dão folga quando anoitece, cedendo lugar para os carapanãs.

À noite, comemos o tal do canoeiro (sapo). Bom demais o bichinho muquiado. Ainda por cima, tem os ossos azuis!

Fomos caçar paca com Arô, o menino Rantã (de 10 anos) e 3 cachorros. Andamos na mata fechada por uns 40 minutos até que os cachorros danaram a latir. Arô fazia um grito iê, iê, iê, ininterruptamente para o cachorro sentir sua presença e não desistir da caça. Andamos rapidamente até onde ela se entocou. O menino já estava lá avisando qual buraco ela havia entrado. Ficamos ali por uma hora e meia. Os dois cavando o buraco, cutucando, fechando outras possíveis saídas. O menino era muito valente, ia se enfiando dentro da terra sem medo. Tinha uma impressionante habilidade com o terçado. Andava descalço com um espinho no pé, mas não se incomodava. Deixava para cutucá-lo nas horas em que não tinha nada melhor pra fazer. Depois de muito cavar, num vacilo do menino, a paca fugiu. Não deu mais para encontrá-la. Voltamos de mãos vazias.

Dona Conceição estava fazendo isca da folha venenosa (asha na língua) para pegar peixe: macera a folha, mistura com farinha e enrola até virar umas bolinhas. Joga na água, o peixe come e fica sufocado indo à superfície para respirar, daí as crianças os vêem e os pegam. Seu João fazia outro tipo de isca. Enrolava a massa de veneno no formato de uma cobrinha, colocava num pedaço e pau e enfiava na traseira de uma lagarta revirando ela pelo avesso, tirando a gosma que compõe seu corpo por dentro. A isca era então: a minhoca do avesso com recheio de folha entorpecente!

Na madrugada chegaram dois meninos com peixes, acordaram D. Conceição para limpá-los. Ela veio com cara de sono, pegou duas brasas da fogueira e foi fazer fogo no fogão de barro. Com o barulho, muitas pessoas já foram acordando, crianças começaram a chorar…em pouco tempo, a maioria da família já estava sentada em volta do peixe muquiado. Comeram e dormiram de novo, satisfeitos.

Aqui é assim: comem quando tem comida, não importando a hora. Passam o dia na cozinha. Quando não estão comendo, estão preparando. Enquanto os homens saem para caçar, as mulheres vão ao roçado pegar mandioca e bananas, outras vão lavar louça e roupas no rio. As velhas cuidam dos meninos pequenos. A vida é ir em busca de comida. Quando estão sem mais o que fazer, tiram piolhos ou espremem os ferrões dos piuns uns dos outros.

À noite, S. João veio conversar com a gente pedindo ajuda para a aldeia. Falou de um jeito triste e cansado. Explicamos para todos a nossa situação e nosso ofício, que a ajuda que eles precisavam nós não podíamos dar. Ele queria que ajudássemos a organizar uma forma de renda para a comunidade. Falamos em amizade… mas tudo ficou impalpável e tornou nossa partida mais triste do que nunca.

Nossa despedida foi rápida. Eu nem soube como despedir. Dei apenas uma palavra de tchau e agradeci.





à margem do riso

31 de Maio de 2008

Palavras sobre um encontro de duas línguas,Pano e português,

Palavras que se encontram,

R’ouapá é muito bom.

Brincadeiras que se cruzam,

Com a cana e a bolinha vermelha,

Chapéus que se diferenciam,

Cocar e cabaça,

Silêncios que por vezes não se entendem, mas se estendem.

Palhaças e índios,

Palhaças vindas de São Paulo

Índios de uma etnia chamada Katukina.

Kanarô, uma música deles,

Um samba tocado por nós.

Um rio pra se banhar,

Sorrisos divididos,

Tristezas guardadas,

Estamos todos tentando chegar Lá…

Mas aqui mermo tá bom.

Esse meio é o viver,

Guimarães já disse algo assim.

Eu, como não tenho talento com as letras, fico aqui tentando mostrar o que foi esse encontro.

Que também não foi.

De Campina até Timbaúba,

Da BR 364 , até subir o rio “Grigório”, como dizem eles.

Da energia elétrica até a chama de uma lamparina

Do índio que compra para comer ao índio que caça para saciar a fome,

Da escassa caça até a boa caça,

Do pouco roçado até as muitas macaxeiras, bananas, batatas doces.

Da falta de estrutura e recurso até a falta de estrutura e recurso,

Cada um a seu modo, mas assim…

A beleza do rio Grigório em lua prateada,

Som e cheiro bom de floresta,

Mas, tem pium…. e merium…. e katukin…

Acostuma,

Sei não…

Marina não costumô,

Eu pipoquei bolinhas vermelhas por toda a barriga,

Em Campina é pouco,

Esses mosquitinhos gostam mesmo é de estar no meio da floresta,

As crianças… Viva! A salvação de nosso mundo.

Sem elas acho que não existiriam palhaços,

E então esse nosso encontro não se daria.

Que alegria é ver essas crianças vivendo!

Banham no rio, sobem no pé de árvore, andam de canoa,

Aprendem a pescar, cuidam dos bebês, vão caçar com seus pais,

Dão muita risada, fazem de tudo um brinquedo.

De noite se embalam na rede, aquietam.

O que será que eles sonham?

Tastô, Na’i, Akô, Mepe, Rãntã… e tantas outras…

Como tem crianças por aqui!

Não falamos a mesma língua, mas a comunicação acontece.

Eles me ensinam palavras.

Bunda é ticho, pum é tipis.

Sobem na rede,

Risadas.

É puro, é assim , desse jeitim.

Como é bom.

Mas, aqui também tem adulto e então nos deparamos com questões que não competem a palhaços.

Necessidades básicas, dificuldades do viver,

Falta de diesel para o barco, falta de assistência médica, falta de anzol para a pesca e munição para a caça.

Tanto pium e ninguém têm mosqueteiro. Os bebês sofrem.

Eles querem ver palhaços?

Nós queríamos vê-los, conhecê-los e trocar com eles,

Mas e eles?

O que um palhaço que nem a língua deles fala faz ali? A palavra se faz importante.

O que estamos fazendo aqui?  Foi o que em algum momento pensei

Essa pergunta me cala.

E assim seguimos… Pra onde agora?

Na partida, o silêncio de Rira me toca profundamente.

O que diz esse silêncio?

O silêncio diz?

Descemos o rio, ele nos levará…

Na margem do “Grigório”,

Eles ficam

Pa’i, Teká, Metsá, Itsomi, Wa’o, Tsorá, Vokê, Voopá…

Estamos descendo o rio…

Já não consigo mais olhá-los,

Descendo o rio…

Eles estão no meu dentro,

Descendo…

Agradeço,

O rio.

Kaitchô…





texto de Frederico Galante

31 de Maio de 2008

Acabo de chegar de terras Katukinas. Ganhei nome novo, Xankõ. A haste da pupunha, de onde nascem as folhas e se abrem os ramos. Fiz novos amigos, índios, Arô, Tastô, Mai, Winho, Levy, Nivaldo, outros…Vi afeto de índio, calmo, quieto, tirando sujeiras da cabeça e da pele, como macacos, como gente da selva. Cacei paca com terçado. Pesquei de rede. Ou melhor, acompanhei. Quase dei uma bica na paca, se isto é caçar.
Só banhei em rio, só comi raiz, macaxeira, batata-doce, e caça, paca, canoeiro, porquinho do mato, e pesca, peixe-bode, piranha, peixe-cachimbo. Brinquei como criança, de levantar pequenos do chão, de dar calambiota, de plantar bananeira. Comi banana de mais de penca, tô até cheirando banana, de tanta que foi.
Aprendi palavra, ruapá, obrigado, oitchô, olá, kaitchô, tchau, shawê, jabuti, e outras. Convivi também com o triste, com o índio que quer dinheiro, acha o branco rico, quer competir, quer o que é do branco, não conhece a própria cultura, fica entre um mundo e outro e se perde.
Tem o fascínio pela TV, pela internet, pelo computador, pela música, forró enlatado, brega, tudo alto no talo. Tem estranho, para nós, trato com a mulher, meio sem afeto, para nós, meio machista, para nós, sem agrado e sem satisfação, sai de casa e não volta, não avisa. Não beija e espera comida. Estranho, para nós.
Tem o riso do índio, que é de coisa pequena, simples, de escorregão, de imitar o outro, de imitar bicho, de não saber escapar de flecha, de picada de pium, de ter medo de nadar no açude. O riso do índio é tempo todo. De criança a crescido. Rir até no silêncio, rir da confusão do branco em não saber ficar quieto. Rir de tanto que a gente pensa, de tanto que a gente quer e deseja, de tanto que a gente sonha. De tanto que a gente pergunta. O índio não romantiza, ele já tá completo.
Tem o corpo do índio, que é duro, parece de árvore. Não cai, não desequilibra, não vacila, não se perde. Escuta, cheira, sente, enxerga tudo, de longe. Tem olho demais, que falta na gente.
E de noite, o índio não dorme, ele sublima o dia, ele só se transforma. Mas tá ali, vagando e cheirando, outro organismo, em recarga, em purificação, jogando fora o ruim do dia e esperando de novo o sol, mas tá lá, existindo em forma nova.
Quando toma o uni, folha rainha e cipó jagube, vê o invisível, conversa com o universo, escuta os mortos, enxerga o passado, intui o futuro. Eu vi Tovi, sem saber. Desenhei Tovi pela manhã, nunca o tinha visto, sequer em desenho ou relato. Mostrei pro cacique João, mostrei pra todos em volta dele. Todo mundo, sem vacilo, na hora falou: Pajé Tovi, Tobias no nosso dizer. E vi tudo, desenho no corpo, lança, capacete, forma do corpo. E soube que Arô, tinha chamado Tovi, na língua sua, bem na hora que eu vi. E o vi chegando e o vi protegendo e tive profundo respeito, profunda segurança, admiração. E me senti seguro e me senti forte, como filho seu.
Vimos que palhaço fica vazio no mundo do índio. Eles não precisam, não entendem, querem brincar junto. Não tem como ficar parado espiando, só rindo. Tem que bater nos palhaços, tem que sair correndo, tem que fazer macaquice junto. Então talvez caiba o palhaço, mas tudo eles já fazem. Parar para ficar assistindo é chato, de virar as costas e de ficar falando ao mesmo tempo, de ficar com medo e criança chorar.
Risada maior é quando a gente pega o violão, sem palhaço, e canta música katukina na língua deles, errando palavra, mas cantando direito. Eles querem de novo e de novo e de novo. Violão é coisa maior. Coisa bela de encantar a aldeia inteira. Violão de pôr a mão e de querer aprender a tocar. Querem ensinar música e música, pra gente saber cantar e tocar. Querem aprender música do branco e risada maior é quando o índio canta Itororó. Quando índio canta Marinheiro Só, que vira Canoeiro Só. Quando índio ouve samba e acha que é muito barulhento, não gostam de ouvir. Preferem Se Esta Rua Fosse Minha…
De encanto também foi que mãe, pai, avô, avó, neto, cunhado, tá todo mundo perto. Um cuida do outro e tudo é de todos. A cozinha e a comida tão sempre com gente. E a cozinha é aberta, de frente pro rio. Não tem hora de almoço ou janta. Tem fome, tem macaxeira, peixe pra assar, canoeiro pra pegar no rio. Tem hora de pesca no sol ou na lua. Melhor na lua, peixe maior. De dia, algum tipo de caça, tipo veado ou tatu. De noite, se não de lua cheia, tem paca ou porquinho do mato. Tem peixe de anzol ou rede. Mas melhor é dar um tipo de planta que faz peixe ficar sem ar e ir para a superfície respirar e vem aquela algazarra de criança e adulto, a fim de peixe pegar antes de afundar de novo, sem morte.
Dormir melhor é na rede. Cama dói as costas. Xixi e cocô é no mato mesmo, mas nunca vi cocô de índio…O xixi, sente o cheiro, no mais de manhã, o chão regado de noite. O amor é bom, mas o que faz de filho…Tem gente com até vinte filhos. Dizem que mãe índia põe cria até os sessenta e cinco. Sei não.
Cabelo, não tem branco. Só se comer um tal de peixe que deixa o cabelo branco. Com Conceição assim foi, só que deixou uns quatro cabelos branquinhos no cocuruto, que nem se vê. E foi o peixe.
Cachorro, dá pena. Magros, que só. Ninguém da comida ou carinho. Eles se viram, e têm medo de gente. Tem muito doente da pele, dos óios, de glândulas. Mas tem a que caça paca, e é bem valente, entra dentro da toca e nem cansa. Essa é mais esperta e mais gorda, se vira melhor.
Bem, fica aqui o vivido no povo Katukina. E tem mais, que de tão grande não cabe.





Céu do Mapiá (AM)

23 de Maio de 2008

mapa

De 13/04/2008 a 22/04/2008

O Céu do Mapiá (AM) é a tradicional comunidade do Santo Daime. O Santo Daime é uma doutrina iniciada por um Maranhense de quase 2 metros de altura chamado Mestre Irineu, que chegou ao Acre no início do século passado. Era seringueiro, soldado da borracha e ouvi dizer que foi integrante da comissão Rondon em 1907.  Ele aprendeu com os índios os rituais com uso milenar da ayahuasca e a re-significou traduzindo para o catolicismo. Recebeu hinos que são cantados até hoje. Sebastião Mota de Melo (então líder de uma comunidade daimista na Colônia Cinco Mil e discípulo de Irineu), teve a iniciativa de fundar uma comunidade que vivesse de forma comunitária e auto-sustentável no meio da floresta, onde todos plantavam, colhiam, abasteciam um galpão e dividiam todo o mantimento em iguais partes. Fundaram a Comunidade no Seringal Rio do Ouro, depois de alguns anos foram expulsos de lá pelo dono das terras. Disseram que ele não deixou ninguém pegar nada além dos terçados. Nem fecharam janelas das casas e seguiram para o lugar que desde 1982 é o Céu do Mapiá. Sebastião faleceu em 1990, fez a passagem, como dizem e hoje o padrinho da comunidade é Alfredo, seu filho.

A cidade de Boca do Acre é assim chamada por ser o lugar onde o Rio Acre deságua no Purus. Fica 200 Km de Rio Branco, mas demora umas 6 horas para chegar de ônibus, estrada de terra e chacoalho. De lá pegamos uma canoa motorizada, viajamos 10 horas com o atento e simpático piloto Sorriso (que recebeu esse nome na Capoeira, pois: _ Na ginga era só rindo, disse ele), pelo rio Purus e depois de muito navegar, ou melhor, canoar, pelo igarapé do Mapiá, que está ainda em cheia e fez a canoa flutuar por entre as copas das árvores.

Fui comprar pão e fui atendida por duas menininhas, uma de uns seis anos e outra de cinco. A mãe delas estava deitada com dor de malária. Já era tarde da manhã e como a vida ali começa muito cedo:

_ Tem pão?

_ Agora só de ontem.

_ Me dá 4.

Conhecemos o padrinho Alfredo e pedimos as devidas autorizações para trabalhar e registrar o trabalho. Seu coração salta pelos olhos, tem o sorriso leve de uma paz contagiante. Conhecemos Oswaldo que nos apresentou a vila, seus antigos moradores. Conhecemos a igreja, os túmulos, vimos uma senhora arrumando as flores com tanto zelo… outras, preparavam a igreja para a concentração que será hoje à noite. A igreja é muito bonita, uma estrela de 6 pontas. Sua arrumação me fez lembrar a Festa do Divino dos outros interiores do Brasil. Aqui incorporam elementos do Candomblé, do Espiritismo e até (num encontro mais inusitado com os índios norte-americanos) o uso do peiote, nos contou Oswaldo.

A madrinha Rita, esposa do falecido padrinho Sebastião, queria muito ver as palhaças, mas, devido à idade, não conseguiria ir andando até a praça, então nós fomos a casa dela. Quando acabamos, ela disse:

_ Mas só? Conta mais uma. Contamos de improviso.

Conhecemos Nilda, a atual diretora e com ela conversamos por muito tempo sentadas na beira do igarapé. Fomos à escola convidar os alunos para a apresentação que Oswaldo nos ajudou a escolher a melhora data e horário: domingo às 15:00 hs, para começar às 16:00hs, quando o sol baixar.

Na casa de farinha Bifi começa a descascar mandioca. _ Com a ajuda da humanidade, vai mais rápido. Disse o moço. Como Quinan não sabe se é humana ou não, não foi.

O Centro de Medicina da Floresta é onde se faz os remédios naturais e onde conhecemos Joana, Renata, Kabir e sua irmã. Compramos o anti-malárico e repelentes de andiroba.

No sábado fizemos uma apresentação no Prato Raso a convite da Liliana. Para lá chegar era preciso caminhar por meia hora na mata aonde vimos duas espécies de macacos: o macaco de cheiro e o puruaku, este era grande e peludo, mas tão peludo que parecia um gato siamês gigante. Depois da apresentação, voltamos para a vila na última hora da luz solar. Entramos na mata com a lua no primeiro dia minguante, grande e baixa. Vimos o sol se pôr de dentro da floresta, o céu alaranjado e o restante da luz na clareira. Bonito demais.

Participamos da festa de aniversário da Marina, italiana que mora aqui há uns 30 anos. A noite esteve prateada. Linda!

Fui comprar 1 litro de gasolina para colocar no gerador e ligar a internet que Roberto ligou depois do expediente.

Nosso último dia aqui no Céu do Mapiá. Dia bonito de sol, almoçamos na casa da Gabriela. Chegamos à praça para arrumar os bancos para as pessoas sentarem. As crianças já estavam todas arrumadas, banho tomado, ansiosas, esperando as palhaças. Fomos nos arrumar na casa de Regina, que originalmente era de padrinho Sebastião, por isso tem sua força, memórias e imagens. A praça ficou cheia. A apresentação começou às 16:30 hs. Entramos em cena e um cachorro chamado Manolo fez a festa: primeiro roubou a vassourinha de Quinan, mas as crianças conseguiram recuperar, depois, na cena do salto no copo d’água, bebeu e derrubou toda a água. No final, quando chegou a hora do agradecimento, o fizemos de coração.

Oswaldo me contou que aqui perto tem um igarapé de nome Quinã, parece que é uma variante do nome de outro igarapé chamado Quimiã. Segundo informações do padrinho Alfredo, seu irmão Valdete, encontrou o Quina procurando o caminho para Quimiã e passou a chamá-lo assim até por dificuldade de pronuncia. Bem, assim se escreve a história…

Agradecemos de coração à:

Isis, Bruxinha, Liliana, Oswaldo, Nilda, padrinho Alfredo, madrinha Rita, Gabriela, Raimundo, Jefe, Yasmin, Maria Eugênia, Irene, Anaruês, Marina, Sorriso.





las cabaças e doutores da alegria no Céu do Mapiá (AM)

4 de Maio de 2008