Cabaceiras (MA)

14 de Dezembro de 2008

Conheci S. José do Ribamar por 15 minutos, foi o tempo de encontrar o cais. Bonita a praça em homenagem à S. José que está “arriba do mar”. Entramos no barco às 17:00hs e ficamos esperando a maré subir. Atamos nossas redes .Claudete conhece muito bem a região, contou da ilha do Gapó, um lugar de encantados , que todos que dormiram lá voltaram com enjôo ou febre… onde tem um touro encantado (Boi Turino) que é a encarnação do rei Sebastião. Ele anda com uma enorme corrente e quem pegar nela é levado para o fundo do mar.Igual na ilha de Lençóis: dizem que de lá ninguém pode levar nada, nem uma pedra ou punhado de areia, senão o barco não desatraca.

Estamos agora no barco Rio Jordão, atravessaremos 3 baias: de S. José, de Sarnambi e Tubarão.

Chegamos com o dia amanhecendo.

Logo apareceu seu Dá, apelido de Adail, no casquinho (como é chamada a canoa aqui) que nos conduziu pelo rio São Lucas à remo até a vila de Cabaceiras. Atracamos no pequeno cais, afundamos os pés na lama. Estamos no mangue.

Lá chegando, Dá nos levou à casa de Jocinho, filho de Zé Mariano. Ele estava na escola e nos recebeu, mas pediu pra falarmos com o pai dele que é quem comanda o lugar. Fomos.

_ Dá licença.

_ Pode ir entrando que a casa é nossa.

Depois dos cumprimentos, explicamos o que nos trouxe aqui. Ele:

_ Palhaçadas, é?

_ Sim. Viemos fazer nosso brinquedo de palhaço e viemos conhecer o senhor, pois disseram que é curador.

Ele riu que se encolhia e deixou escapar, reticente:

_ Esse nome é curioso: curador… Riu de novo.

 _ Mas curador aqui é Deus. O que tenho é o que chamam de dom.

Vim salvar terreiro, terreiro eu vim salvar. Vim salvar a Santa Bárbara e todos os orixás do mar.

Cabaceiras, um lugar.

Antigamente tinha muita cabaça lá.

José Mariano, um homem de força e fé.

Chegou nesse lugar há 30 anos.

Lá, nada não tinha. Apenas uma casinha.

O homem comprou e por lá ficou.

Por gosto, por destino.

Mais casas foram sendo feitas.

O lugar foi se habitando de gente.

Gente que acreditava na verdade de Mariano.

Gente que se curava pelas mãos de José.

Gente que se juntava ao Tambor de Mina de seu José Mariano, que como diz ele é uma escola.

Tem aluno dentro e tem aluno fora.

Gente que ia para brincar no boi de orquestra desse senhor.

Gente que participava da festa do Divino Espirito  Santo.

Dona Riba, Roberta, Evarista, Liandro, Domingas, Zezé, Lurdinha, Sonia…

O lugar se encheu de vida e de festa.

A galinha subiu no tonel de água limpa.  Roberta pediu:

_ Dá uma pata nela pra mim que ela já vai fazer pintura (cagada).

Bifi e Quinan foram visitar Zé Mariano com o verso: ô de casa, ô de fora, diga logo quem está aí…

Saudamos e pedimos conselhos para resolver o problema do chulé de Bifi. Ele ria aquele riso traquinado e acabou dando uma receita de verdade:

_ Passa mucunan com azeite de andiroba, lava o pé bem lavado e molha toda noite. Bota a água no vidro de desodorante e borrifa toda noite.

Bifi: _ Mas quem é que vai molhar pra mim toda noite?

Mariano: _ Você mesmo faz.

Bifi: _ Mas dá uma preguiça.

Mariano (rindo):  _ Ahhhh, mas então não quer ficar boa! 

Gira  gira  no tambor.

Gira gira com ardor.

Gira gira pro encontro

Ai que quando gira parece que tudo clareia.

Mais quem é que tá girando?

Se a terra sempre gira e às vezes eu penso que tô parada?

Vou girar, vou girar, que uma hora eu vou chegar.

Cavaleiro na porta bateu, o Aruanda vai ver quem é.É São Jorge guerreiro, comandante da força e da fé.

Santa Bárbara já saudamos.

Agora a festa é para o Divino Espírito Santo.

As mulheres tocam caixa para o pombinho verdadeiro,

Os homens vão buscar os mastros, são três. Grandes troncos de madeira cuidadosamente pintados. Cada qual de um tamanho.

O mastro é benzido com uma vassorinha de planta e água benta por um casal.

É chegada a hora de levantar o mastro. As caixeiras tocam Oliveira.

Os homens levantam o mastro, a bandeirinha no alto balança com o vento.

Viva o Divino Espírito Santo!

Mais dois mastros são levantados, um na frente da igreja e o outro na frente da escola. No alto mais duas bandeirinhas que com o vento balançam. Uma tem o desenho do Divino e na outra uma coroa.

As caixeiras dançam ao redor do mastro, o menino Sebastião segura uma bandeira.

As caixeiras entram no terreiro e continuam cantando com suas belas vozes. Alvorada nova, novas alvoradas… Mariano está deitado na rede, pois suas pernas já não podem muito. Sua presença é essencial. Ele ouve.

Acordamos `as 4:30 da manhã com a chegada do trator. Chegamos em Cabaceiras de casquinho e partimos de trator, que nos levava pelo areal rumo à Humberto de Campos.

Hora em que eu ria internamente era quando o trator mudava de marcha na subida. Todo mundo num mesmo movimento, para frente e para trás, sonolentos.





parte 1: ir

1 de Dezembro de 2008





palhaço Pimentinha (PA)

15 de Novembro de 2008





Bailique (AP) las cabaças

24 de Outubro de 2008

Fomos atar as redes no barco “Deus nos Guie” que nos levará ao Bailique. De manhã o barco estava vazio, mas à tarde até nos assustamos com as 150 pessoas e suas respectivas redes armadas. O barco virou um poleiro.Essa noite foi uma verdadeira loucura porque o barco balançava demais, as redes batiam umas nas outras violentamente e por isso muitas pessoas preferiam dormir no chão. Então o barco era um monte de redes emaranhadas balançando, batendo em fortes golpes e o chão lotado de malas e pessoas. Teve gente que preferiu dormir sentado coberto até a cabeça com um lençol. Teve gente que passou a noite jogando dominó.

Chegando na Vila Progresso, dormimos no hotel desativado da escola Bosque e conseqüentemente acordamos nele mesmo.O Bailique é um arquipélogo composto de 8 ilhas e 48 comunidades.

Andamos de um canto a outro da vila vezes suficiente para gastar o calcanhar da chinela havaiana, coisa que acontece quando se anda sobre pontes, não me pergunte por que.

Fizemos palhaçadas hoje à tarde. No final duas crianças correram em nossa direção, subindo uma no colo de Bifi e outra no meu. Eis que surge, como um presente do acaso uma terceira criança, menor que as duas primeiras, vindo em nossa direção com um gato no colo para compor a imagem daquele hai kai.

Termino a noite na rede observando uma caranguejeira jantar uma barata. Ela tem patas invejáveis!

Fui tomar um banho e sai com os cabelos despenteados. Dona Galanta ao me ver, sem nada dizer, levou-me até a sua penteadeira e apontou o pente, o creme para os cabelos e a colônia perfumada. Foi a primeira vez que penteei os cabelos nos últimos 5 meses.

Ela acontece com freqüência aqui na frente de casa e, segundo Erundino nenhum cientista explica a pororoca. Dizem que é o encontro da água doce e a salgada, mas eu mesmo já vi acontecer entre duas águas doces. Só sei que faz um barulhão.

A explicação do presidente de Livramento sobre o mau funcionamento do único orelhão da vila: _ Entre uma ligação e outra tem que esperar 5 minutos para o telefone recuperar, mas o pessoal acaba fazendo essa fila danada, ligando um depois do outro. Assim não tem telefone que agüente!

Às 18hs o barco parou em Itamatatuba para esperar a maré subir. Saímos para um passeio. O jogo de futebol dos graúdos estava sendo decidido nos pênaltis. As pontes não estavam confiáveis. Colhi urucum para fazer tinta.





Arraiol (AP) por Frederico Galante

24 de Outubro de 2008

O senhor sabe que eu sou assim, jitinha assim, mas já uso sutién?! Sim, que logo já quero ser mamãe. Mamãe usa sutién e tem peitão. Então eu penso que, se eu desejar com firmeza e usar sutién, assim ligeiro vou ter peitinho e poder ter neném. Aí vou cuidar dele bem direitinho, que já sei. Vou segurar o neném assim forte abraçada e fazer ele dormir e parar de chorar.Eu moro numa casa nova agora, que a que eu morava foi pro fundo no lanço da maré. Aí papai deixou ela que foi só ali, toda escangalhada e construiu outra, agora mais para dentro da terra firme, com o quintal cheio de bois, que dá até de montar neles e passear pelo campo.

Eu tenho um quarto só meu, bem do lado do quarto do maninho. Eu tenho uma janela bem grande, que vejo a vila toda. É muito bom, dá de ventar e de espiar tudo o que acontece no trapiche. Vejo o comprido do igarapé, o porto, as pessoas que chegam e até o campo de futebol do outro lado do rio. É lá que papai e todos os ômi da vila vão toda tarde jogar bola, depois de chegar do roçado.

Maninho também jogava bola ali. Antes dele ir embora. Triste que foi, Maninho sumindo no rio e eu gritando sem poder fazer nada. Eu chamava Maninho e ele não ouvia e papai não chegava. E eu gritava, gritava e achava que ele ainda ia ouvir e voltar do fundo do rio.

Ele, Maninho, nadava tão bem! Quando papai ia levar a gente prá lancha, Maninho que pegava o bote. E ele agarrava o nó lá no fundo do igarapé, ficava até quase dois minutos prá baixo da água. E eu esperava na beira, certa que ele ia conseguir voltar para pegar ar e trazer o bote, sem o nozinho. Minhas amigas todas ficavam de mirando o Maninho e eu pulava e dançava de orgulho e de feliz que Maninho sempre conseguia. Desta vez, ele não conseguiu e não voltou. Mas mamãe me disse que ele fez é nadar direto para o céu e que ele sempre vai vir visitar a gente para matar a saudade.

Aí toda noite eu rezo. Pro Maninho vir me dar um abraço. Eh, mas que tô com uma raiva dele, que nunca veio me abraçar! E já foi abraçar mamãe, que ela me contou. De mim, só vi um dia uma luz bem forte, que eu achei que era Jesus. E quando eu olhei bem direto para ela, ela desapareceu. Eu penso: vai ver que era Jesus ou o Maninho, que estava tentando vir me abraçar, mas não consegue. Então tô torcendo prá ele vir me abraçar do mesmo jeito que torcia para ele voltar prá beira do igarapé. E fico torcendo até dormir e sonhar com um montão de coisas, que não consigo lembrar.

Ei, senhor, embora lá, que quero aprender aquela pirueta que o senhor fez ontem com a gente. Vai, vamu! Depois, conto mais. Eh, ah, ufa! Isto dá é espanto, senhor. Mas agora faz daquele jeito torcido, vai, faz mais, por favor?!

Ei, isto aí que o senhor faz, as piruetas, eu peço que faça também com o Miguelzinho, que é muito gaiato. Ele vai aprender rápido, danado de macaquice. O senhor sabe o que se deu com ele?! Aquelas marcas todas nas costas dele, a casa dele foi que pegou fogo! E ele não saiu a tempo. Se queimou tudinho. Mas ele era bem miudinho, foi crescendo e as marcas tão afrouxando, para sumindo tomara Deus. Agora ele fica dizendo para todo mundo que quer ser bombeiro.

A mãe do Miguelzinho foi embora, deixou ele só com o pai e com a avó. Eles ralham bem com ele. Também, o Miguelzinho é muito malino, apronta demais. Se ele pedir para o senhor a palavra pop, dê cá seu shorts, que eu vou escrever ela-palavra. Pois, se ele pedir pop e o senhor não tiver escrito em nenhum lugar, o senhor vai ter que pagar um bom-bom para ele. E o Miguelzinho é bem chato, fica é te cobrando e num para de pedir tudo que vê pela frente. O senhor que dê corda para ele: ele não pára mais e vai grudando firme que nem carrapato.

O Miguelzinho era amigo do Maninho, tem foto, quer ver? Mamãe e papai te mostram o quarto dele e o armário que fizeram com todas as coisinhas do Maninho, titicas. Eles gostam, de sentir honra, de lembrar do Maninho. Modo de dizer, que o senhor vai ver e se d´mirar com o barquinho que ele fez um dia antes de ir embora. E as roupinhas todas dele, que ficam guardadas em volta das fotos suas, umas com os amiguinhos e outras de roupa de posar prá foto, de shortinho e camiseta.

Lembro agora dos ômi graúdo mergulhando que era a comunidade inteirinha, descendo pros fundos do rio atrás do corpinho do Maninho. E nisso foi mais de hora. E tia Sandra gritava: -Calma, que é outro que vai morrer!. Ai, meu Deus, todo o desespero do mundo!

Choramos Maninho foi um mês todo dia e noite. Mas papai chorou mais, de modo diferente. O choro dele era de modo sem lágrimas, era meio oco, sei não, papai não conversava direito e esquecia de tudo. Foi que, tudo estranho. Depois veio aquele dia da pororoca. Quatro meses depois. Tia Sandra sabe bem, mas não diz não. Depois da pororoca ficou mais cabrêra, modo de chegar menos perto. Aquela pororoca que virou o barco de papai umas quinze vezes, de certo sabe o senhor. E eu tava lá, que vi papai ficar dentro do barco, que girava, tacando as crianças jitinhas tudo afora pela janela da lancha, salvando todas elas. Eu sentindo bem dentro um orgulho forte de papai, mesmo que sentia de Maninho.

Antes eu tinha era raiva de papai, porque que ele tinha deixado o Maninho morrer?! Depois da pororoca senti mais menos, até acabar. Acabou de vez. Agora amo papai, que sei que ele vai me salvar toda vez que eu precisar. Papai sabe de tudo, sabe o senhor?! Ele entende do mato e dos nomes tudinhos das árvores, dos peixes e das caças. Tem vez que papai entra no mato e fica é três dias para pescar e caçar. Lá ele arruma o de comer e beber. Aí ele volta com um mundo de caça, que é paca, veado, tatu, jabuti, marreco, tudo prá gente comer depois da mamãe limpar, ficando demais de boa.

Aí o pai junta a gente e conta o sucedido com ele e com os amigos dele, os rio-beirinhos para aí debaixo. Caso seu, foi que encontrou um boi todo escangalhado, mas cortado feito gente-homem que tivesse agido. A carne tava era cortada mesmo no lugar certo. Mas tinha perto as pegadas da onça, o pai sabe bem dizer.

Foi que então, o pai e os amigos conhecem bem o mato, num era de espanto se a onça voltasse, que sempre ela volta prá devorar a carne morrida. Pai e os amigos então esperaram foi é pra mais de seis horas, quando a onça voltou, boca da noite. Veio sorrateira, barulho não fez, pois onça lambe as patas e anda com as folhas do mato pegadas, motivo de silêncio. O pai e os amigos souberam dela pelo cheiro. De morte. E foi que atiraram nela os quatro, os quatro: pai, Zé Cachaça, Idalino e seu Quinlhão. A onça, ligeira, nem sentiu o trisco das balas, sumindo pro mato. Pai e os três outros saíram atrás dela.

O senhor sabe que onça se esconde em tronco de Samaúma?! E foi assim que ela procedeu. Os quatro então deram de desferir golpes com terçado, ticando, de fora prá dentro, na toca da Samaúma. A onça mostrou que era mais ligeira e, mexendo dentro da toca, nem relou na faca do facão. Foi que, por medo de bote maior da onça, que Seu Quinlhão arrazoou de atirar com o rifle prá dentro da toca. E popocou mais de cinco tiros até começar a sair sangue pelos cortes do terçado. Era sangue e grito de onça, que demorou tempo. Ficaram lá, então, os amigos todos de espreita até o sem-sinal da vida da onça. Disse o papai que o couro do gato ficou com o Seu Quinlhão, que levou para casa sua na Vila Progresso.

Sim, todo o tempo do mundo eu penso em papai e no Maninho. Mas penso também na Isabela, que acho que ela é bonita demais. E acho que é ela que é que vai de primeiro ser mamãe aqui na vila. E penso também em minha mãezinha, que é prima de papai. Tem gente que fala que não pode casarem primos. Que dá é filho com problema. Mas, espia aí, tenho problema nenhum não, senhor. E penso também que meu cabelo é bem bonito. Gosto de passar o pente nele, tirar aqueles nós tudo que se faz no vento daqui da beira. Que é lá que a gente joga bola e brinca com a Sofia.

 A Sofia é a capivara que mora lá na casa do Seu Pedro. Ela é danada, sim senhor. Corre atrás de bola no jogo de futebol, nada no rio com as pessoas e atrás das canoas que saem para pescar. A Sofia deixa a gente até pôr o dedo na boca dela e fica mamando que nem mamadeira. O Miguelzinho, isto eu num gosto, num é certo não senhor, sempre bate na Sofia, motivo de malino que ele é. Ele bate até no Jitão, o boi preto que vive atrás da casa do Julinho, prá baixo do trapiche. O Jitão nunca fica bravo, ele só se levanta, roda o rabo que nem ventilador e vai encontrar os outros bois, como se o Miguelzinho fosse mesmo só uma mosquinha, um carapanã-zinho.

Embora lá, o senhor já viu as paiáças?! Que tão aqui na vila já faz uns dias?! Embora lá, que elas são muito engraçadas. Tem uma, a Bifi, que sobe nas árvores todas daí, parece macaca! E a outra, a tal de Quina, fica lá no pé mandando a Bifi descer. Muito engraçado, mesmo. Aí a Bifi sai correndo, esbarrando em tudo, quase caindo, e a Quina corre atrás, êta. Mas que dá é vontade de correr bem juntinho, que sempre sucede outra doidêra da Bifi.

Num é que as duas, a Bifi e a Quina, levaram as calças do tio Pedro e do papai, as calças de pescar e de caçar?! E vestiram, coube sei como, não! E as calças tinham um rasgo bem grande, bem aqui, na bunda. Muito engraçado! Parecia que as duas iam elas mesmas lá pro mato caçá. Aí, elas entraram na casa do tio Joca, que é meio bravo, sabe?, mas que num disse nada quando elas entraram. Elas então viram que a parede da casa do tio Joca é pintada, como é mesmo a mata e os rios. E aí a Bifi começou a nadar no rio da parede da casa do tio Joca, muito engraçado!, e aí a Bifi saiu da água e viu uma onça e se arrepiou todinha de medo. Muito engraçado! E a Quina achou que era era é nada e foi chamar a Bifi para ir embora e, quando a Quina viu a onça, ela pulou no colo da Bifi, muito engraçado! Aí as duas foram saindo bem de mansinho da casa do tio Joca e num ‘e que assustaram com ele, cara de bravo. E o susto delas foi tanto, que até o tio Joca sorriu. Eu mesma nunca tinha visto os dentes dele, muito engraçado!

Aí, o senhor sabe?! Que tinha um ômi morando numa rede bem alta lá, bem lá, no canto das cabaceiras? E nunca ninguém viu o ômi. Mas lá tem tanta cabaça quebrada, que estão dizendo que o ômi come é as cuias todas. Eu que nem sabia, fiquei é só de espanto! Num é que a Bifi, sem medo nenhum, quando viu a rede fez só é achar que era para ela. Que a rede estava lá era para ela subir e descansar lá em cima?! Nem sei como ela conseguiu subir lá, tão rápido que foi. Sei que aí, muito engraçado, a Quina ficou é com inveja, pegou uma escada, porque mais sabida ela é, e pensa mais direito que a Bifi, encostou na rede e subiu ligeirinho, a Bifi nem entendendo nada. Aí só deu foram as duas balançando na rede.

Mas, como sempre elas brigam, num deu espaço prás duas e foi o que foi, o furdúncio. A gente, de baixo, só via que era o pé da Bifi, todo furado, aparecer prá fora da rede. Via, que era muito engraçado, a cara da Quina, com aquela boca enorme e cara de espanto, sair para fora da rede e entrar de novo. E era então a Bifi saindo da rede com várias caras, com bigode, com barba barbosa, de cabelo novo, que era muito engraçado. Muito engraçado! Aí que prá descer da rede a Quina foi ligeirinha, no ombro dum ômi graúdo que tava ali. E a Bifi, vendo a Quina indo embora, desceu da rede toda macaca, quase num pulo só, muito engraçado!

Agora, espia o senhor, num é que a Bifi se transformou numa árvore e começou a se esconder da Quina, que pareceu que tava é brava com ela?! Mas a Quina viu a árvore e ficou é encantada que bonita que era ela, cheia de galhos e folhas, ramagem que a Bifi pegou do chão. E num é que a árvore andava e seguia a Quina? E ainda lerdou prá Quina se perceber disto, muito engraçado!, e sempre a Quina virava prá trás e a árvore, a Bifi, estava mais perto. A Quina então fazia outro elogio prá árvore, mas começou a achar alguma coisa esquisita, modo de dizer, que a árvore tava era andando. A Quina fez aquela cara abobada dela, mas continuou indo mais adiante no trapiche. Aí, parece que, no nada, ela percebeu que a árvore era a Bifi! E aí, danada, esperteza só, pediu para a árvore ficar de costas. Dito e feito: pegou que a árvore era que era a Bifi. Muito engraçado! Dava vontade a gente mesma de dar uns tapas na Bifi e sair correndo atrás dela. As duas então saíram correndo e a Quina ralhando com a Bifi e nós tudo atrás, os miudinhos. Aí, elas sumiram, foram num sei prá onde lá dentro da casa da tia Neusa. E nós ficamos é só espiando a hora que as paiáças iam aparecer de novo.

Embora lá, vamos ver se as paiáças já apareceram. Eu nunca sei quando é a hora delas, que elas não tem hora de aparecer, pode ser de dia, de tarde ou de noite, a gente pode dar de cara com elas. Mas deve de ser agora não, que, espia, o sol está muito forte, o senhor nem queira sair de casa, que mãezinha diz que faz mal. Por isso os trapiches estão assim vazios, não tem ninguém andando. Mas vamos esperar, que logo elas vêm.

As crianças todas aqui do Arraiol fazem que só falam das paiáças estes dias. As brincadeiras lá da escola são é de imitar elas: tem a brincadeira da pulga que se equilibra no barbante, tem a pulga que pula, erra o alvo e cai na cabeça de alguém. E tem as mágicas da Quina, que tenta fazer sumir o papel, mas num consegue, e no final o papel se transforma num cordão todo colorido que sai da boca dela, sei não como ela faz isto! Isto não dá de imitar, não senhor! Aí tem tanta brincadeira, que não pára mais.

Mamãe diz que as paiácas são gente assim como nós, que usam pintura na cara e trocam de roupa. Eu acho que sei quem elas são, que dormem na casa da tia Neusa. E eu gosto é bastante delas, que ficando brincam com a gente. Tem um ômi que veio com elas, bem barboso, que é muito engraçado, ele estica a boca, um canto prá cima, outro prá baixo, que torce toda a boca. Parece que o ômi tem um fio na mão. Ele também tem uma máquina de tirar fotos que a gente aperta o botão e vê a foto num quadradinho atrás da máquina. Ele é bem legal e deixa a gente tirando tudo as fotos.

O senhor, mesmo, é que veio com elas, também, não é verdade?! O senhor também dorme lá na casa da tia Neusa! Embora lá, vamu brincar de pirueta, só uma, uminha, vai, vai!

Ufa! Eu não queria que vocês fossem embora, não! Vocês são tão legais! Embora, vem morar aqui com a gente, que o tio Jorge constrói uma casa rapidinho para vocês morarem. Vocês não podem?! Ah, que pena, dá um jeito, vai, que mamãe e o papai vão ficar felizes. Eles até pararam de pensar muito no Maninho estes dias. E papai gostou de vocês, de mostrar o mato e contar as histórias e a mamãe, bem faz para ela, gostou de passear com as paiáças e de mostrar o quarto do Maninho, que ela, a mamãe, vai até pintar as unhas, com desenho de florzinhas, da paiáça de cabelo curtinho.

Mas, se vocês não podem, faz bem, vale. Que foi tão bom! Mas vocês vêm de novo, não?! Para o ano, vai! Que eu, eu mesma, vou é fazer de esperar todos os dias as paiáças vindo chegando na beira da minha janela.





las cabacas e doutores da alegria em Mazagão Velho (AP)

22 de Outubro de 2008





Mazagão Velho (AP)

22 de Outubro de 2008

Um dia inteiro para chegar. Duas balsas é preciso para atravessar os rios.Chegamos no fim da tarde na pequena cidade toda enfeitada com bandeirinhas, as nuvens amarelas de sol poente.

viemos lá de Marrocos

para uma vila habitar

revivemos nossa história

num cantinho do Amapá

Mazagão Velho foi fundada em 1770 para abrigar 163 famílias de colonos lusos vindos da costa africana, em decorrência dos conflitos político-religiosos entre portugueses e mulçumanos. Essas famílias e seus escravos chegaram ao local por volta de 1771.

A maior festa de Mazagão Velho é a de São Tiago e acontece todo ano no mês de julho onde é feita a representação desse conflito. Um verdadeiro teatro a céu aberto.

A galinha morreu de paixão. Apaixonou-se por um galo que não quis saber dela. Não é aconselhável comer uma galinha nessas condições de morte, pois a paixão passa para a pessoa que come. A Edna foi quem falou. Em seguida eu disse: é melhor levar mordida de jacaré do que pegar barriga de boto rosa. Fui eu quem falou, a Edna concordou.

Aqui tem um rio de nome Mutuacá, ele enche e esvazia todo dia. Impermanente.

eu vou, eu vou, eu pra lá.

eu vou subir o rio Mutuacá

A festa do Divino Espírito Santo é um festejo religioso realizado em homenagem ao pombo branco e comandado pelas mulheres da comunidade. A festa começa na sede com um almoço oferecido pelos festeiros do ano, que são escolhidos no ano anterior através de um sorteio. As crianças-meninas, todas de branco com lindos vestidos representam figuras devotas do Divino. A Imperatriz, segundo me disseram é uma representação da princesa Isabel, usa uma coroa na cabeça que parecia estar pesada e incômoda. As mulheres vão ajeitando, mas segue assim.  A Imperatriz fica sentada num trono, ao lado dela tem a trinchante e as outras são as empregadas do Divino que carregam uma representação do pombo branco nas mãos.  Segue-se a procissão até a igreja, na frente vai um rapaz que carrega uma bandeira vermelha com o desenho do Divino Espírito Santo. As pessoas vão atrás acompanhando, fotografando e filmando suas filhas ou parentes que lá estão a exercer uma função de destaque na festa. Assistimos o levantamento do mastro e a troca de coroa. É encerrada essa parte religiosa. Começa o Marabaixo. Todos vão andando pelas ruas e entrando nas casas com música, canto, dança e gengibirra, bebida à base de pinga, gengibre e açúcar. Às vezes acrescenta-se também o abacaxi.  Assim vamos seguindo noite adentro. Mulheres e homens improvisam os “ladrões”, assim são chamados os versos compostos na hora. No momento do refrão todos cantam. As mulheres dançam com suas saias rodadas, os homens tocam a caixa. Ouvi um ladrão que achei bonito:

se tu me dissesse

que me tinhas amor,

eu caia em teus braços

como o sereno na flor.

Netinho convidou o Fred para tocar na festa da Alvorada à N.Sra da Luz nesta noite. Ele ficou de bater na janela às 2:30 da madrugada para nos acordar.

Enquanto a festa de Marabaixo é feita pelas mulheres, a Alvorada é feita apenas pelos homens. Acordamos com as batidas na janela e os fogos de artifício. Levantamos e fomos encontrar os Foliões na casa de seu Mururé. Virando a esquina já dava para vê-los todos sentados esperando o tambor esquentar no fogo. Reconheci seu Raimundo e seu José Branco com seus largos óculos. Noite alta. Todos sonolentos. Raimundo levava a cruz enfeitada de fitas. Herdou essa função de seu pai, que levava a mesma cruz. Raimundo é fazedor de cavalinhos de miriti usados pelas crianças na festa de São Tiago. São cavalinhos feitos dessa madeira que é levíssima, tão leve como um isopor. Os cavalinhos são enfeitados com papel crepom. É encantador. Os cavalinhos e ele.

Netinho foi o comandante da festa. Levava o pano santo decorado e o vestia cada vez que entravam numa casa. Os instrumentos ficaram por conta dos outros: dois tambores chamados de macaco (um amassa, outro repica), os mineiros ou tabocas, uma flauta de madeira, um reco-reco, um cavaquinho, um violão e a bandeira de N.Sra que abria os caminhos, guiando o cortejo de Alvorada.

Entramos na primeira casa com a reverência da cruz e da bandeira abrindo a cantoria das vozes masculinas. Uma música religiosa dentro da casa, outra no pé do altar e depois um batuque com os dois tambores, também diante do altar. Depois foi hora de merendar o café-doce com bolacha. A senhora e seus filhos esperavam em pé a louvação.

glória no céu se deu

no rosário de Maria

se Deus não viesse ao mundo

ai de nós o que seria.

Na saída, uma conversa entre a mulher, seu irmão Netinho e Mururé:

_Ei mana, você tem que jogar remédio para matar essas formigas aí na frente. Ou então esfumaçar no dia de Alvorada, senão ninguém agüenta!

_ Mas eu joguei…

No caminho, entre uma casa e outra, pequenas frases capturadas na noite atualizavam os assuntos cotidianos. Frases soltas misturadas com rojões, relincho de cavalos e galo dando sinal de dia. Frases para acordar a alma, o espírito, para ajudar a cantar a melodia, pagando todos juntos à mesma promessa de fazer festa para a Santa com cara de menina.

_Você vai ver que carinha de menina ela tem.

Eu mesma, que não costumo ser de santos, aproveitei o sentimento para pedir pela minha família, pelos amigos e para os queridos que já se foram. Rezei comigo as minhas palavras.

Na última casa todos se ajoelharam e rezamos um pai-nosso e uma ave-maria. Existe uma pedra vinda da África, onde cada folião deve ajoelhar e rezar sozinho. O comandante da festa diz quem deve fazer a penitência, mediante o comportamento de cada folião durante a Alvorada (se cantou com respeito, se estava de calças, sem camisa de time de futebol, se não fumou nem bebeu). No caso de hoje apenas o comandante se ajoelhou para representar todo mundo, inclusive nós, os visitantes.

flor, flor, flor

flor do Ambé

quem tem olhos vê

só se engana porque quer

Na conversa de varanda à noite Paula, Angelina contaram que os entendidos (benzedores) não trabalham num determinado dia da semana. Contaram sobre o irmão de Paula. Quando ele tinha 5 anos, ela pediu que levasse umas mangas de merenda para sua mãe na roça. Ele foi, mas desapareceu por muitas horas. A vila inteira procurou. Só encontraram o menino às 3 horas da tarde sem nenhum machucado. Ele disse que estava indo pro roçado e não se lembrava de nada. Os entendidos diziam para ele nunca se aproximar do rio, mesmo porque ele não sabia nadar. Ele sempre obedeceu, mas aos 18 anos, no meio de uma conversa com um amigo disse sem mais nem menos: _Espere aqui que já volto. Foi até o trapiche, tirou os chinelos e mergulhou. Morreu afogado.

_Os entendidos disseram que a pessoa sente “aquilo” chamando e nem percebe o que está acontecendo.

_ Aquele rapaz que vai passando ali (apontou) quando morava naquela casa (apontou) sempre escutava, mais ou menos às dez da noite, passos de gente na estrada. Todo dia era igual. Uma vez ele olhou na janela para ver quem era e viu um padre de bata e chapéu grande, pretos, tipos esses trajes antigos que não existem mais. Passou e sumiu depois daquele arco (apontou). A partir desse dia ele ficou doido. Foi benzido, tratado com chá e só depois de um ano ele ficou bom.

Uma criança de 12 anos morreu afogada no rio Mutuacá. Nessa ocasião havia bombeiros na cidade por causa da festa e eles mergulharam horas procurando o corpo e nada de encontrar. O povo, então, colocou uma vela numa cuia virgem e soltou com cuidado na beira do rio. Onde a cuia parasse, lá estaria o corpo. E assim se deu o fato. A cuia parou e ficou rodando no mesmo lugar. Os bombeiros mergulharam e encontraram a menina.

Fui dormir no meio de tantas estórias que ouvi ontem. Imagens surreais, sonhos coloridos, imagens gravitacionais.

Josué ao responder se ele era nascido em Mazagão: _ Nascido, criado e praticamente morrido aqui.

Conhecemos Zezinha que nos contou a história da festa de N.Sra Aparecida. Ela tem 85 anos, segundo ela de danação.

Escute só o resumo da história, disse ela.

Um casal de negros africanos deu luz a uma menina branca, de olhos azuis que cresceu no meio dos negros e era tida como uma rainha. Nos seus 15 anos ela não quis festa, quis um barco de presente para cruzar o Atlântico. No terceiro banzeiro do mar, o barco afundou e ela foi pega por um bicho que a levou para o fundo. Ela virou metade peixe. Depois de muitos anos ela voltou, aparecendo na praia. A menina voltou para ensinar como fazer uma festa em homenagem a ela. Ensinou a fazer gengibirra, a tocar tambor e a cantar ladainha. Fundaram a festa na África. A família Luz e Macedo trouxeram a festa pra cá, pro igarapé do Lago.

aonde tu vai rapaz?

vou no mundo passear

na fresca da madrugada

antes do galo cantar.

_Bifi, vamos para casa que a noite já está chegando e o mundo já vai dormir.

_O mundo vai acabar?!

Criança: _ Vai, mas amanhã tem mais de novo. Ele só fica enrolando.





las cabaças e doutores da alegria em Cachoeira do Aruã (PA)

19 de Outubro de 2008





Cachoeira do Aruã (PA)

19 de Outubro de 2008

Saindo do porto de Manaus, rumo a Santarém, avista-se por alguns quilômetros a refinaria da Petrobrás com muitos navios e tonéis, um deles chama-se Nilza. Ouço em reticências um senhor dizer ao outro: _ Agora que estou vendo… um navio cargueiro-petroleiro desse tamanho… com o nome da minha irmã Nilza, olha só que coisa…

Passamos no encontro da águas dos rios Negro e Solimões. O irmão da Nilza, que continua aqui ao lado falou para a senhora: _ A água do rio Negro é muito pesada, você vai sentir quando passarmos para as água amarelas que o barco até vai mais rápido. Os rios chegam a borbulhar na hora do encontro. Parece que brigam um com o outro.

_ Eles brigam, mas esse aqui (o Solimões) acaba vencendo.

Agora é noite aqui no barco. O barco aportou em Santarém. Eu também aportei.

Pegamos o ônibus para Alter do Chão. O calor é forte e o ônibus vai enchendo e enchendo. Entra um isopor cheio de peixe, só os peixes, sem nenhuma pessoa. O homem deixou e foi embora … ô mingau de peixe!… todos riam. Entra criança, entra mulher, homem, senhores e senhoras, carrinho de picolé. Um homem senta na caixa de isopor, por falta de espaço. A caixa quebra. As pessoas comentam. Esse fê-la da puta! O motorista deixa entrar a quantidade de gente que couber como sardinha enlatada, até peixe sem dono entra. As pessoas reclamam disso, mais ao mesmo tempo dão risada, tiram sarro. Depois de 50 minutos assim, chegamos.

O rio está cheio. Não tem praia, mas tem as borboletas amarelas quem vem procriar, anunciando a estiagem. Noite alta, tomamos banho vendo a lua baixa minguando amarela. O rio estava calmo, quase dormindo. Hoje dormimos na varanda. Os macacos guaribas começaram a disputa entre bandos com seus urros. Todo mundo acordou para ouvir. Eu não quis dormir depois disso, não que eu tenha perdido o sono, fiquei sentindo os cheiros e ouvindo a mata em festa noturna. Tantos sons… até pica-pau eu ouvi. Também esteve presente nessa noite o Urutau, com seu canto melodioso que não sabe se ri ou se chora… Perdi o sono de felicidade.

Perto de muita água , tudo é feliz (Guimarães Rosa)

Seu João que é o condutor do barco que nos levou a Cachoeira do Aruã, diz que cada um de nós tem um guia que Deus deu pra gente. E que nós devemos ouvi-lo, pois é a nossa proteção, o nosso zelador. Disse que a mãe natureza é forte e soberana. Ele navega há 35 anos. Está com 48 anos. Anda por esses rios desde os 13. Diz que tem horas que é muito difícil. _ O rio Amazonas é violento, o Tapajós é perigoso e o Arapiuns é acolhedor.

Por esses rios ele navega.

_ Vocês são palhaças, eu sou marítimo, ele é barbudo.

Ele não tem medo da morte, acha que lá deve ser melhor do que aqui, pois se assim não fosse, o povo que já foi, voltaria. Se não voltou é por que lá está bom.

_ Qual a sua paixão Seu João?

_ Pela vida.

As expressões do rosto de João são como braços de rios…

Fizemos palhaçadas com o palhaço Pimenta, filho do Pimentinha e responsável pelas palhaçadas nessa viagem do barco Abaré. Ele propôs uma gag: o Branco, duvidando da inteligência do Augusto, pede que ele diga 3 palavras que comece com a letra T. O Augusto pensa, calcula e responde: vaca, jerimum e pinico. O Branco não entende onde está o T de vaca. Ele esclarece:

_ Na teta.

_E no jerimum? Não tem nenhum T.

_ (pensando) Je jê, ri ri, mú mu.  O T está no talo e na talhada (faz o gesto de cortar).

_ E no pinico, onde está o T?

_ Na tampa, no tolete e na trovoada (fala trrrrrrovoada, imitando o som do pum).

O trabalho hoje foi às 16:30hs com o sol um pouco mais moreno. Rosivaldo, marinheiro do Abaré e nosso velho companheiro, virou poeta nos últimos 2 anos. Para quem não muito dizia com a boca, ele agora deu para inventar mundos debaixo d água.

Na casa de Ana, Bifi tomou uma poção mágica que Quinan foi buscar com os índios para fazer seus dentes reaparecerem, pois haviam fugido da boca. As crianças jogavam água nos pés, na cabeça, mas não adiantava… Acabamos com uma despedida que virou eco.

Almoçamos com Mauren e Daniel que nos contaram de uma comunidade chamada riozinho de Anfrísio. Disseram que lá tem muita onça. Uma vez as meninas estavam descendo o rio e a onça, que estava na água, deu um bote subindo na canoa. Cada uma pulou de um lado, nadando rapidamente até a margem. As duas ficaram observando a onça descer o rio, sozinha, sentada dentro da canoa.

Uma menina estava tomando banho no rio e levou um bote da cobra-grande (sucuri). Ela se agarrou no pau, a avó dela ajudava puxando pelo braço de um lado e a cobra puxava pelo outro. A jovem ficou no meio rezando alto.

Na praça de Alter encontrei o medico Rafael. Ele estava trabalhando em Juruti e tinha acabado de pedir demissão. Ele diz que lá não tem nenhuma estrutura, não tem material, medicamento para o hospital, mas vai a banda Calipso fazer show lá e recebe 150 mil. A Alcoa acaba de chegar na vila com 5 mil trabalhadores e a conseqüência disso foi cachaça e prostituição.

_ Então você está desempregado?

_ Você já viu um pediatra desempregado? Agora mesmo acabei de atender uma menina na praça com bicho de pé. Palhaço e pediatra nunca ficam desempregados, por que trabalham com as crianças.

Pegamos carona com Borô até Santarém, tomamos açaí e despedimos dele no porto. Estou agora no barco “Viajeiro” que sai às 18 horas para Macapá. Partimos com o barco lotado de pessoas e mercadorias, as redes batendo umas às outras. O barco ganhou o rio Amazonas com chuva. Dormimos.

Hoje o céu está de nuvens.

O gavião acompanha o barco na mesma velocidade. Ele está nos pescando.

Ao chegar em Tucumã, seis crianças do mesmo tamanho e corpo de sete anos vieram correndo ver o barco. A senhora ao meu lado falou: _ Esses aí são todos da mesma firma.

Um corpo

É um rio

Com braços

Pego o remo e navego.

Cada um está num silêncio. Como habitar o mesmo instante?





las cabaças e doutores da alegria na aldeia Yawanawá (AC)

14 de Outubro de 2008